A Ilha – Terra dos Ventos

Uma tempestade se aproximava ao norte. Aquilo não era nem um pouco estranho para aquela região. A região norte da Ilha era conhecida como “Terra dos Ventos”, porque este era o elemento que dominava. A pressão era extremamente baixa naquela parte e não havia qualquer explicação científica encontrada para justificar aquele fato.

Não havia grandes cidades, mas apenas vilas que abraçavam o elemento que dominava a região. Os moradores da Terra dos Ventos eram conhecidos como árticos. Eles eram seres leves, conseguiam flutuar, mas não se davam bem com tempestades de ventos. Furacões e tornados não eram seus aliados. Pelo contrário, causavam estragos e destruíam vilas e por isso havia alerta sempre que um se aproximava da região habitável.

Plim, nosso herói, era um dos árticos que morava na vila X. Ele era cientista. Seus pais vinham tentando dissuadi-lo da ideia de seguir com sua nova expedição, mas ele estava certo de que atravessar essa fronteira lhe traria reconhecimento e descobertas. Ele e mais dois amigos cientistas iriam estudar a região inabitável da Terra dos Ventos – o chamado Ninho de Furacões.

O que posso contar sobre o Ninho de Furacões? É uma região que atrai furacões com frequência. Os boatos é de que a cada dois dias um furacão ou tornado se forma na região. Quando os fenômenos possuem uma força maior, extrapolam a área de ocorrência e atingem vilas e vilarejos. Os árticos temem os furacões, pois podem ser levados por eles e desaparecer junto quando chegam ao fim. A ciência dos árticos ainda não sabe explicar o que acontece, mas acredita-se que ocorra uma simbiose entre os ventos que formam os povos e os ventos que formam o fenômeno. É preciso conhecer a anatomia dos árticos para compreender aquela hipótese e aceitá-la como explicação lógica.

Na véspera da expedição, Plim teve um sonho que o deixou confuso. Estava em seu veículo quando sua mãe lhe contava que ele fora o responsável pela destruição dos seres árticos. Os dois haviam sido os únicos sobreviventes de um desastre provocado por furacões sucessivos, causados pela expedição que ele liderara. Acordou assustado, temendo que aquilo fosse uma premonição. Seria possível?

Na manhã seguinte, porém, acordou certo de que deveria seguir com sua expedição. Não comentou nada com ninguém, despediu-se de seus pais, encontrou os companheiros e os três partiram em sua jornada. Eram dois dias de viagem até o Ninho dos Furacões.

– Atenção, turma! – pediu, vendo que os outros dois continuavam a conversar.

Quando percebeu que sua plateia lhe dava atenção total, sorriu pelo poder de sua autoridade e continuou:

– O veículo foi construído para aguentar ventos de alta velocidades, mas precisamos estar prontos para fugir, caso haja necessidade. Durante os dois dias de viagem, vamos repassar o cronograma de emergência, para o caso de haver necessidade. Não vamos nos arriscar mais do que o necessário, mas precisamos ser bravos para ultrapassar limites e chegar onde nenhum outro ártico alguma vez chegou.

– É verdade que o Ninho de Furacões fica perto do limite da Terra dos Ventos? – quis saber um de seus companheiros.

– Sim. E o mais interessante é que ultrapassando esse limite, a pressão fica mais tranquila e os ventos parecem não conseguir seguir por muito tempo. No passado, os nossos cientistas desenvolviam estudos com outros povos, mas fomos esquecendo essas características e nos individualizando cada vez mais. Eu sou contra, mas não posso falar por todos os árticos.

Os dias de viagem passaram em uma rapidez inimaginável. No início da tarde do segundo dia, eles sentiram um chocalhar grande no veículo e um aumento na intensidade dos ventos.

– Estamos quase lá! – comentou um de seus colaboradores.

– Estamos. – ele respondeu mais para si mesmo. Faria história e seria para sempre lembrado entre os árticos como o cientista que tivera coragem de ultrapassar os limites do conforto e estudar os furacões de modo a salvar toda a sua raça.

Algumas horas depois, eles conseguiram visualizar o primeiro dos furacões. Ele era de médio porte e parecia fazer um desastre, mas chegava a uma linha e desaparecia estranhamente. Era isso que Plim desejava estudar. Por que ele desaparecia daquela forma e por que apenas alguns conseguiam transcender até às cidades?

– O que se passa em sua cabeça, Plim? – quis saber o cientista ao seu lado.

– Apenas pensando na missão que temos pela frente. – respondeu com sinceridade.

– Quantos dias acha que ficaremos por aqui? – perguntou o outro colaborador, demonstrando um pouco de ansiedade em sua voz.

– O tempo necessário. – ele respondeu em tom definitivo.

Aquilo o deixava chateado. Mal tinham começado a expedição e já queria finalizá-la. Não se faziam mais cientistas como os de antigamente…

O primeiro dia de estudo caminhou de forma mais do que satisfatória. Eles conseguiram observar dois furacões e medir sua temperatura, pressão e velocidade. No segundo dia, três furacões foram observados. No dia seguinte, quatro. Cinco, seis, sete e assim por diante.

Ao final do décimo dia, quando o décimo furacão se recusava a morrer, os árticos temeram que fossem enfrentar a sua primeira tempestade. Parecia que a força e eficiência do veículo seria testada pela primeira vez.

Os ventos foram ficando mais fortes e eles precisaram guardar todo o equipamento. Plim sentiu que os seus colaboradores estavam com medo e ele mesmo não se sentia tão seguro. Mas sabia que não seria uma expedição fácil. Entrar para a história exigia força de vontade, determinação e enfrentar os riscos do mundo.

Tentaram dormir àquela noite. O barulho dos ventos não permitia que relaxassem o suficiente para dormir. E se eles o furacão chegasse ao veículo, eles conseguiriam mesmo resistir? Em muitos momentos da noite, Plim se perguntou se havia sido uma boa ideia comandar aquela exposição, mas sentia que alguém precisava assumir aquele papel.

A prova final aconteceu já no final da madrugada. O furacão atingiu o veículo onde eles estavam. Eles foram levados. A tração não era forte o suficiente para enfrentar a força do furacão. Plim sentiu-se culpado. Fora dele a ideia da expedição e ele havia convencido os colegas que estavam ao seu lado de que tudo daria certo. Agora, não tinha mais tanta certeza.

Tentaram resistir. Ligaram o veículo na tentativa de escapar dos ventos que os levava. Se uma das portas do veículo arrebentasse, eles estariam perdidos. Os seus colegas estavam desesperados e Plim tentava a todo o momento acalmá-los.

– Força! Precisamos estar unidos nesse momento se quisermos vencer esse perigo. Vamos todos chegar são e salvos em casa.

O furacão seguia se movimentando e Plim sabia que iria atingir a vila. Começou a torcer para que seus familiares e amigos conseguissem evacuar a ilha antes da chegada deles.

Eles começaram a sentir o furacão perdendo força. Não sabiam quanto tempo haviam ficado lá dentro e por quantos quilômetros tinham sido arrastados. Plim apenas torcia para que seus familiares estivessem bem e que a força do furacão não tivesse causado muitos prejuízos.

Foi então que ele chegou a uma terrível conclusão. Os furacões rompiam os limites do Ninho de Furacões quando havia um ou mais árticos por perto. Alimentavam-se de suas energias e ganhavam força suficiente para avançar pela Terra dos Ventos até chegar ao seu limite com outras regiões da Ilha. Se isso fosse verdade, sua hipótese só poderia ser confirmada se ele voltasse ao Ninho de Furacões outras vezes. Mas se fizesse isso, traria mais destruição para os seus compatriotas.

Ainda estava com essa hipótese em mente quando o veículo onde estavam foi jogado contra alguma superfície doida, uma das portas se abriu e um de seus colegas foi levado. Ele e o outro cientistas conseguiram se esconder, enquanto sentia o furacão perder mais força e se distanciar deles.

Abalados, os sobreviventes voltaram para a Vila X. O furacão tinha passado por lá, deixado prejuízos e alguns mortos.

No futuro, os árticos criaram o dia para homenagear todos os mortos devido às expedições de Plim. O cientista ficou conhecido como o responsável pela maior tragédia de árticos, mas também pelo descobridor da Teoria da Energia dos Árticos. Graças a ele, muitos foram mortos, mas ao fim de sua série de expedições, nunca mais um furacão ultrapassou os limites do Ninho de Furacões.  

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