CARTA DE DESPEDIDA – FINAL

Carlos,

A ideia de escrever uma carta de despedida para mim mesmo pode parecer estranha. Por que não guardar tempo e disposição para me despedir de outras pessoas? Calma! Será assim que farei. Tudo a seu tempo. Ontem estava assistindo a um drama em meu celular e finalmente pensei sobre a morte. A morte. Implacável. Verdadeira. Destino final de todos nós. Resolvi que não quero ir embora deste mundo sem me despedir daquelas pessoas que amo, que significaram alguma coisa em minha vida. Mas como cheguei a essa conclusão? Vou explicar.

Sempre vivi uma vida muito comum. Pais que me deram atenção, nenhum irmão. Aprendi a criar amigos imaginárias e a viver minha vida com eles – meus amigos do bairro ou dos colégios não podiam estar comigo o tempo inteiro. Fui uma criança muito extrovertida, mas acabei me tornando cada vez mais tímido com o início da adolescência. Então veio a morte do meu pai em um acidente de carro, e a minha ligação com minha mãe tornou-se algo extraordinário. Jamais pensei que poderíamos ser tão ligados quanto nos tornamos. Que emoção!

Minha mãe uma vez me disse que tinha medo de não ser próxima de seus filhos, de vê-los guardando segredos e não confiando em seu amor. Acho que ela pode dizer que conseguiu ser bem sucedida. Não há ninguém no mundo em quem eu confie mais do que nela. Eu a amo! Nós a amamos.

Na adolescência, sem saber lidar com minha ansiedade e com a timidez que cada vez mais crescia em mim, mergulhei num mundo apenas meu, passei a viver a internet, em personagens que eu mesmo criava para histórias que pretendiam ser inesquecíveis. E foram. Dessa época eu guardei amigos queridos e, quando não, lembranças engraçadas, românticas, insubstituíveis. Não sei se me arrependo. Tudo isso corroborou para eu ser quem sou hoje.

O fim da adolescência, a faculdade e as novas responsabilidades esmagaram o pouco de autoestima que eu tinha. Eu me sentia cada vez mais para trás, não sabia dizer o porquê de não gostar de minha aparência ou de nada que eu fazia, não tinha orgulho de mim mesmo. Ainda que elogiassem um trabalho meu, por exemplo, eu sempre tomava isso com suspeita ou incredulidade.

Ansiedade, os problemas com humor e a falta de confiança foram se resolvendo aos poucos, com terapia e medicamentos. Mas não foi nada fácil. As crises, as inseguranças, os machucados – físicos e psicológicos – e a quase morte prematura e intencional. Tudo superado com o auxílio de amigos queridos, de pessoas que não se importaram em demonstrar o quanto precisavam de nós.

Mas uma doença recente me fez questionar o meu futuro aqui na vida. Será que sobrevivo? Eu achava que sim, mas ultimamente meu quadro piorou. Após assistir ao filme que citei no começo desta carta, resolvi escrever minhas despedidas paras pessoas queridas e essenciais em minha vida. Não que eu queria morrer, mas caso aconteça de forma inesperada, eu me precavi de algum modo para que eles soubessem o quanto estava grato e o quanto estava feliz por tê-los em minha vida.

E por que me refiro a gente aqui nesta carta sempre no plural? Porque hão de existir dois Carlos – o que morreu e a lembrança. Um é finito, mas o outro sobrevive enquanto houver alguém que lembre dele e que o ame. Como no filme “Viva – a vida é uma festa!”. Fiz uma lista grande de pessoas que queria agradecer, depois selecionei uma outra quantidade por prioridades. Não sei se conseguirei escrever a todos, mas vou me esforçar para me despedir da maioria. Mas antes, preciso me despedir da parte de mim que fica. A outra vai enfrentar uma nova aventura, uma nova jornada.

E se eu me curar e sair desse hospital vivo e bem? Vou rasgar todas as cartas e dizer essas palavras pessoalmente. Abraçar àqueles que amo e me esforçar para construir momentos ainda mais especial. O futuro? Terei de aguardar para ver. Por enquanto, somos ainda um só Carlos.

 

Para mim mesmo,

Carlos.

2 comentários sobre “CARTA DE DESPEDIDA – FINAL

  1. Ufa, o final dessa série de cartaz de despedida foi mais feliz do que eu esperava. (Eu confesso que deixei de ler algumas porque parecia que ia ser mais drama do que estou aguentando na minha vida nesse momento…) Todas as que eu li foram textos muito lindos, obrigada por escrevê-los.

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    1. Olá! Nossa, muito obrigado mesmo pelo comentário. Esse foi um conto muito especial para mim, porque as relações foram todas baseadas em fatos reais. Mas a próxima série será de contos de fadas, então vai ter romance, lágrimas e alegrias também. Vou ser clichê, mas também vou tentar fugir disso. hahaha ❤

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