CARTA DE DESPEDIDA – MEU QUERIDO AMOR

Meu querido amor,

Você não sabe o quanto me dói ter de lhe escrever essas palavras. Eu queria poder viver mais tempo ao seu lado, compartilhar risos, lágrimas e energia. Eu queria poder estar presente em outras memórias de sua vida e torcer quando você finalmente conquistasse aquele cargo de que falamos tantas vezes já deitados na cama.

Confesso que deitado em meu leito, ora passando bem, ora sentindo dores, refleti muito sobre a vida. Eu sei que as coisas não são fáceis para pessoas como nós. Ser gay em um país que nos odeia não é coisa simples e eu respiro sempre duas vezes antes de sair às ruas, temendo o que vou ouvir, o que vou presenciar. Não temo apenas por mim, mas por meus amigos, por você e por qualquer outra pessoa que tenha a sua vida ameaçada apenas por existir. Eles não compreendem o amor, não sabem explicar o porquê nos interessamos por um sexo diferente dos demais, mas apontam o dedo e nos julgam. Vamos para o inferno. Ora, já estamos nele.

Eu sinto que não vou poder passar mais tempo ao seu lado – acho que já disse isso, né? O que eu quero dizer é que você me ensinou tantas coisas em tão pouco tempo. Você me tirou do inferno, torceu por cada conquista minha, repreendeu os meus comentários autodepreciativos. É bem verdade que nem tudo são flores. Não soube lidar com os meus arroubos e desequilíbrios. Achou que me proibindo de externar o que eu pensava faria com que eu tivesse uma imagem melhor de mim mesmo. Chamou de emocional fragilizado o que na verdade era doença – e me repreendia quando eu chamava do nome que deveria ser chamado.

Apesar disso, eu te entendo. Deve ser horrível viver ao lado de alguém que pensa em se matar, se machuca e não gosta de se mesmo. Sei que você achava que precisava me amar por você e por mim, mas não é bem assim. Você não podia me amar por mim mesmo. O mais irônico de tudo é que, no fim, não foi a doença mental que me matou, mas uma doença física, um invasor externo que apoderou-se de meu corpo e bagunçou meu organismo.

Se alguém que não você ler essa carta, achará que ainda estamos juntos, mas esse não é o caso. A distância, porém, não faz com que você deixe de ser meu amor. Terminamos há apenas dois meses e cá estou eu, em um leito de hospital. Juro que passei dias pensando de deveríamos voltar ou não – mas no fim a vida decidiu por nós dois. Por mim, não posso dizer que compreendo seus sentimentos ou seu o que se passa nesse seu coraçãozinho.

Por outro lado, eu quero que você saiba que fiquei muito zangado com você todas as vezes que não respeitou meus sentimentos e a minha vontade de não falar sobre determinado assunto. E fiquei triste comigo mesmo por não ter estado ao seu lado quando seu irmão morreu. Nunca falamos sobre o assunto, senti como se eu não tivesse abertura. Será que realmente tivemos essa intimidade que eu gosto de pensar nos momentos de dores? Amar é lembrar, é sentir, é viver. Não sei se o que sinto nesse momento é amor ou nostalgia, mas estou inclinado à primeira opção.

Dito isto, espero do fundo do meu coração que você não tenha que ler esta carta. Mas caso algo súbito aconteça, eu queria que aqueles a quem eu amava tivessem conforto em minhas últimas palavras, escritas com meu coração aberto. Não vai haver mais ninguém para me julgar, porque não haverá mais eu, afinal.

O meu conselho é que sejas feliz. Não se perca em arrependimentos ou muita tristeza, porque sua vida ainda é longa e eu vou cuidar para que assim o seja – serei seu anjo da guarda do outro lado da vida. Talvez eu fique com um pouco de ciúmes quando você encontrar um novo amor, mas vou torcer mais do que todos para que você se entregue e crie vínculos. Você é jovem demais para sentir-se um viúvo irrecuperável. Você é bem mais do que isso. E você merece o mundo. Cuide-se!

 

Com amor,

Carlos.

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