CARTA DE DESPEDIDA

Hora da morte: 12h24 do dia 27 de junho de 2019.

Muitas lágrimas, pessoas inconsoláveis, algumas conformadas. Era uma dor que se findava, mas uma saudade que se impunha sobre os presentes. Quem fica é obrigado a lidar com a perda, com as lembranças e hábitos que precisarão ser reaprendidos com novas pessoas ou de novas maneiras.

Carlos tinha uma doença grave. O nome, os sintomas e a forma como ele morreu não importa realmente. Ele estava internado há mais de duas semanas, e entrara em coma nos últimos três dias. Alguns ainda tinham esperança de que ele fosse acordar, mas era uma besteira e agarrar em tal sentimento, sem qualquer embasamento.

Mesmo com o grupo de orações de sua família no WhatsApp, ou as promessas que seu melhor amigo fizera há seis dias. A morte fora implacável mesmo às preces de sua mãe, que perdera o único filho. “Nenhuma mãe deveria ter de lidar com a dor da perda de seu filho”, ela disse, em seu rápido discurso durante o velório do rapaz.

Apenas 26 anos de vida. Os filhos que poderia ter, o emprego dos sonhos que prometera alcançar, os shows que estava em sua lista de desejos… Tudo agora planos abstratos e irrealizáveis, de alguém que partira para uma nova aventura.

Dois dias após o enterro do rapaz, porém, Ana vai visitar a mãe de seu melhor amigo. Ela estava triste, mas não de um jeito inconsolável. Parecia, de certo modo, conformada, apesar da dor visível em seus olhos. Faltava-lhe o brilho que Carlos sempre admirava quando falava da mãe.

Ana segurava uma caixa, o que não passa despercebido pela mãe do rapaz. Talvez lembranças de um mundo onde Carlos ainda habitava. Talvez ela não estivesse realmente preparada para lidar com o conteúdo daquela caixa, mas estava sem jeito de dizer isso à menina. E se esse fosse o jeito dela em lidar com a perda.

Era uma caixa com cartas que o rapaz havia escrito, informou Ana, com lágrimas nos olhos. Um dia, já internado no hospital, ele pediu que ela lhe levasse um caderno, envelopes e canetas de cores azul e vermelha. Ela atendeu ao pedido dele. Depois, ele solicitou uma caixa. “Não precisa ser grande”, ele explicou. Ela atendeu também a esse pedido. “Se por acaso eu não sair desse hospital, eu quero que você abra essa caixa e entregue o conteúdo aos seus respectivos destinatários. Você faria isso por mim?”, ele pediu. “Mas você vai sair dessa. Pense positivo”, ela replicou. “Tudo bem, eu também acredito que vou sair dessa. Mas caso eu não consiga ter esse final feliz, você poderia realizar esse meu pedido?”, ele contra-argumentou. Ela cedeu.

Tinha esperado esses dois dias porque sabia que ainda não estava pronta para lidar com aquilo, ela contou à mãe do rapaz. Talvez ainda não estivesse, mas sentia em seu peito que a hora havia chegado.

Abriram a caixa. Cartas. Seis. As duas estavam entre os destinatários.

 

CONTINUA…

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