Ano não tão novo, vida não tão nova

Ele deitou-se em sua cama, pensando em tudo o que havia feito nos últimos meses. Ainda doía em seu peito não estar perto de sua avó em seus últimos momentos de vida, mas fora convencido por sua mãe que não devia ficar se culpando por algo que não podia controlar. Não era como se sua avó estivesse com um prazo de validade. Não é assim que a vida funciona.

No dia anterior, ele estava em uma balada e agora descansava em sua cama – sem ressaca porque tinha parado de beber. Olhando para o teto, lembrou do menino que queria ficar com ele, mas ele não deu bola porque não queria se apegar. O seu eu do ano passado teria apostado nessa possibilidade de relacionamento, mas ele era outra pessoa agora. Não queria mais um relacionamento sério, mas sim apenas “pegar e não se apegar”.

De repente, tinha percebido que ainda não lera um único livro àquele ano. Antes já teria devorado pelo menos uns 10, mas agora estava fazendo outras coisas e não havia mais tempo para gostar das coisas que gostava no passado. Uma pena, porque sabia que as histórias sempre lhe traziam surpresas e lhe acalmavam o coração. Agora, sempre que nervoso, fumava um cigarrinho para relaxar. Talvez o método anterior fosse mais relaxante e promissor.

Foi no mês de setembro que ele fez a coisa mais arriscada de sua vida. Aceitou um convite para saltar de paraquedas. Inicialmente, ele ficou relutante em aceitar aquele desafio, mas o seu novo eu não era medroso, mas sim alguém disposto a enfrentar os maiores perigos para viver a vida. “A vida se vive apenas uma única vez”, disse a si mesmo.

Não foi tão ruim como ele imaginava, apesar do seu pavor de altura. Ele pensou em desistir algumas vezes e de fato convenceu sua amiga de que não faria aquela loucura. Depois de ela já estar no ar, porém, ele disse a si mesmo que o seu novo eu não tinha medo de nada e aquele desafio deveria ser cumprido.

Foi uma sensação libertadora! Era aterrorizante estar no ar, sem muitas garantias, mas, ao mesmo tempo, era como se ele precisasse daquilo para provar a si mesmo de que estava vivo. O medo foi, aos poucos, sendo substituído pela excitação e ele acabou aproveitando a experiência mais do que esperava.

No mês de outubro, aceitou o convite para ir a sua primeira festa a fantasia. Ele nunca tinha ido porque não curtia muito festas à noite, então sempre rejeitava quando os amigos o chamavam. Agora que estava indo frequentemente a festas, ele não perderia aquela oportunidade de se fantasiar. Foi vestido de Papai Noel, porque já tinha a fantasia e estava apertado para providenciar outra tão em cima da hora. A festa trouxe lembranças muito boas, apesar do grande calor que fez debaixo daquela roupa vermelha.

No dia seguinte, seus amigos quiseram ir à praia, mas ele recusou. Sempre fora um amante de acordar ceio e ir nadar no mar, mas agora odiava aquela água salgada, aquele amontoado de areia para todo canto e o sol quente batendo na pele. Mesmo com aquela vontade arrasante querendo arrastá-lo para o mar, resolveu ficar em casa assistindo a algum filme policial – gênero do qual nunca gostara.

Em novembro, se questionou pela primeira vez se estava fazendo alguma coisa saudável. “Será que estou radicalizando demais?”, perguntou a si mesmo, enquanto fazia uma corrida na praia. “Eu amo praia, digo que odeio, mas, mesmo assim bato ponto todos os dias aqui. Já até mergulhei sozinho, mas sem ninguém saber. Isso está certo?”, seus pensamentos o acompanhavam, enquanto escutava Bones, da banda Young Guns – um bom achado musical em sua mudança deste ano.

O questionamento e debate interno durou todo o mês de novembro. No primeiro dia de dezembro, parou de fumar e voltou a beber. A ressaca o bateu de uma maneira incrível e ele prometeu que jamais beberia novamente e como era horrível aquela sensação de enjoo e dor de cabeça. Por que sentia saudades disso mesmo? Nem ele sabia explicar.

Manteve o hábito de acordar cedo, mas no final de semana seguinte chamou os amigos para tomar um banho de mar. Chamaram ele para passar o Natal em uma festa, mas ele avisou que ficaria com sua família, como já fazia tradicionalmente. O Natal era uma festa familiar e ele não mudaria essa sua perspectiva.

No final das contas, ele pode conhecer um outro modo de vida, mas uma lição ainda maior ficou para si. Na vida, qualquer decisão que tomemos quando há um dilema de opções, sempre haverá um “e se”, uma possibilidade que pode martelar a sua cabeça. O simples fato de escolher uma coisa, acaba matando a possibilidade de escolher um outro caminho oposto. A mudança é permitida e não importa o seu jeito, sempre haverá algo a se arrepender. Novas experiências podem trazer coisas boas, mas os velhos hábitos também podem ser muito prazerosos. Não será uma mudança radical, uma vida nova, que acabará com sua tristeza.

Mas quando tomamos decisões erradas – como magoar uma pessoa por descuido, por exemplo – agir de maneira diferente é uma prova inegável de sua mudança, de sua melhora. Novos hábitos podem trazer bons momentos, mas também não há nada de errado em mesclá-los com os antigos, que são igualmente agradáveis. O importante é buscar sua felicidade sem se anular.

E com esses pensamentos ele sentiu que tinha dado um importante passo para que o ano seguinte fosse realmente um “ano novo”.

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