Ano novo, vida nova?

Ele acordou no final de março com uma notícia triste. A Páscoa havia sido mais cedo àquele ano e ele decidira que passaria a Semana Santa em uma viagem sozinho. Sempre aproveitava o feriado para ter mais tempo com sua família, mas esse ano, com sua nova postura, decidira que passaria um tempo sozinho.

Estava ainda na cama, pensando se levantaria agora ou voltaria a dormir um pouco mais, quando o seu celular tocou. Era sua mãe. Ela não aceitara bem sua viagem sozinho para outro estado, contrariando as tradições da família. Ele também não sabia se tinha gostado de sua decisão, mas não havia muito o que ele pudesse fazer no momento. Também não queria brigar com sua mãe. Resolveu não atender ao telefone, ir tomar um café e depois aproveitar o restante da manhã na piscina do hotel.

Quando voltou ao seu quarto, pegou o celular para tocar uma música enquanto tomava banho. Havia 16 ligações perdidas de sua mãe, 7 de seu pai e 9 de sua irmã mais nova. Por que toda aquela comoção? Ele começou a ficar preocupado. Ligou rapidamente de volta para a sua irmã, que atendeu em um misto de tristeza, preocupação e chateação. Eram muitos sentimentos para um tom de voz só.

– Onde você estava? Ninguém conseguia falar com você! – reclamou, mas parecia mais área do que sua voz demonstrava.

– Desculpa, fui nadar e acabei esquecendo o celular no quarto. O que houve? Por quê todas essas ligações?

E então soube da verdade. Sua avó tivera um infarto na noite anterior. Ela foi levada ao hospital durante a noite, mas acabou tendo um novo infarto pela manhã e não sobreviveu. O enterro seria no dia seguinte e as pessoas queriam saber se ele iria para o velório. Ele disse que sim.

Sentou-se na cama, sentindo-se culpado. Por que não tinha ido passar o feriado com sua família como sempre fazia? Poderia ter visto sua avó uma última vez, talvez ajudasse de alguma forma. Quem poderia dizer? Era mais um arrependimento que ele levaria consigo.

A tristeza pela morte de sua avó e a culpa por ter decidido viajar ao invés de passar pela Páscoa o acompanhou por algumas semanas. Deixou de lado o hábito de acordar muito cedo (não conseguia mais acordar tão tarde) e de fazer exercícios e foi o seu antigo eu por alguns dias. Uma vez mais fortificado, guardou a culpa no peito e continuou a ser a pessoas que decidira que seria naquele novo ano.

Sempre chegava atrasado nas festas de aniversário, mas quando sua irmã celebrou os 23 anos no início de maio, ele foi um dos primeiros a chegar e até ajudou com a decoração do local. Registrou muitos momentos e sentiu-se muito feliz por ter estado na festa desde o começo. Houve momentos que ele, normalmente, jamais vivenciaria e que foram muito legais.

No fim de semana seguinte, foi a praia com seus amigos. Ele sempre tomava banho de calção e não gostava de tirar fotos de si mesmo, ainda mais em uma situação de corpo exposto como na praia. Resolveu fazer diferente. Tirou fotos dos amigos e dele, resolveu ir para jogo e pôs uma sunga para tomar banho e fumou mais um cigarrinho. Apesar do desejo de beber uma boa cerveja gelada, conseguiu segurá-lo. Ele não mais bebia e precisava aprender a lidar com essa nova realidade.

Quando chegou em casa, postou um monte de foto no Instagram, com legendas de superação – coisa que sempre criticava antes. Percebeu que o hábito de fazer exercícios tinha feito ele emagrecer e agora estava perdendo a sua barriguinha – coisa que sempre o incomodava antes. Resolveu, então, além dos exercícios na praia, que também iria se matricular numa aula de crossfit. Estava se tornando cada vez mais uma pessoa fitness.

No início de junho, sentiu uma vontade gritante de comer chocolate, mas lembrou a si mesmo que tinha abolido qualquer coisa daquele tipo. Não comia mais chocolate e evitava o açúcar a qualquer custo. Ainda era uma decisão que lhe pesava, porque sempre fora alguém apaixonado por doce, mas estava conseguindo segurar a vontade.

Deitado em sua cama, no final da primeira quinzena de junho, ele pensou em quantas coisas diferentes tinha feito naquele ano. Parara de beber, começara a fumar, viajara sozinho, deixou de ser a pessoa que chegava tarde nas festas, começara a praticar exercícios, abandonara o açúcar, se afastara um pouco de sua família… Eram muitas decisões que tinham marcado aquele começo de ano. Havia se desafiado de uma maneira incrível e estava sendo uma aventura interessante.

Mas será que ele estava mesmo gostando?

 

CONTINUA…

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