Ano novo, vida nova

Os fogos iluminavam os céus, anunciando um novo ano. Todos ao seu redor prometiam mudanças, faziam planejamentos ou desejavam ao próximo um ano de prosperidade e realizações. Ele, por outro lado, ironizava aquela confraternização, estando na festa apenas pela bebida. Não era de hoje que ele fazia pouco das tradições de ano novo.

No passado, ele fora como uma dessas pessoas, que vestia branco no Réveillon, desejava todos esses votos padrões e acreditava que um novo ano traria mudanças. Ano após ano, porém, ele era surpreendido com os mesmos problemas, o mesmo trabalho tedioso, as mesmas pessoas mesquinhas, a mesma rotina insuportável.

Dois dias antes da virada de ano, ele leu uma história sobre um menino que decidira mudar de vida e fazer tudo ao contrário do que ele fazia. Na história, o menino tomou coragem para ir em busca do emprego dos sonhos, declarou-se para o seu amor e viveu altas aventuras. Então, tivera a ideia. Não iria fazer planos novos, mas passaria a agir completamente ao oposto do que costumava fazer no ano anterior. Isso sim traria mudanças em sua vida.

Começou por não desejar “feliz ano novo” a ninguém. Enquanto as pessoas o faziam, ele bebericava o seu espumante, observando o começo do que seria um ano inusitado. Quando foram lhe desejar os votos costumeiros, ele esquivou-se sem qualquer educação, sendo duro em suas decisões. O seu eu do ano anterior teria sido muito mais sensível, mas agora ele era uma personalidade ao oposto do que se esperava dele.

No dia seguinte, mais mudanças. Era ele sempre quem acordava mais tarde em sua casa. Colocou, pois, o celular para despertar e acordou com o raiar do dia. Não seria mais sedentário. Fez o café da manhã e saiu para caminhar no calçadão. Deu um mergulho no mar e voltou para casa. Sentia-se já diferente.

Quando sua mãe acordou, ele já estava de banho tomado e sentado à mesa da cozinha, preparando um sanduíche. A primeira semana do ano foi aquela algazarra com sua nova postura saudável e esportiva. Nadava, caminhava, alongava-se e fazia exercícios. Parou de beber e começou a fumar.

– Filho… – chamou-lhe sua mãe. Parecia relutante.

– Diga, minha mãe.

– Você agora está fumando?

– Experimentando.

Ela fez uma longa pausa. Ele aguardou, mas ela nada disse. A atenção de ambos voltou-se para a televisão. Era já o 13º dia do novo ano. Após quase cinco minutos de silêncio, sua mãe voltou a falar.

– Tenho notado que você está diferente.

– Estou experimentando uma nova postura.

Sua resposta era vaga, assim como as iniciativas de sua mãe. Após mais alguns princípios de questionamento, ela pareceu desistir completamente de seja lá o que estivesse em sua cabeça. Ele também não a encorajou.

Durante todo o primeiro mês do ano, precisou de um despertador para conseguir acordar cedo, mas 30 dias haviam se passado e agora seu corpo já começava a pegar o ritmo, e ele já estava na cama antes das 22h. Era uma coisa que ele jamais imaginou que conseguiria. Mudar de hábitos exigia dele muita determinação e, algumas vezes, quase sentia saudades do seu eu do ano anterior.

Um mês representa apenas 1/12 de um ano. Isso dava pouco mais de 8% do ano concluído. O rapaz se perguntava se teria coragem de seguir com aqueles hábitos durante todo o ano.

Por outro lado, estava gostando da pessoa que havia se tornado. Era muito visível que manter aqueles hábitos seria uma tarefa não tão difícil como ele havia imaginado. Ou será que seria?

 

CONTINUA…

2 comentários sobre “Ano novo, vida nova

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