24 de dezembro de 1945

A guerra acabara. Ele havia sabido disso pelo noticiário do rádio. Fazia anos desde a última vez que tinha pisado na Europa. Sua família havia saído do velho continente em busca de novas oportunidades, uma vez que o desemprego na Itália batia índices recordes.

Quando ele ainda era uma criança, seus pais mudaram-se para aquela pequena vila, que contava com um número muito ínfimo de pessoas. Ele até gostava do lugar, mas não podia dizer que tinha amigos. Sempre fora uma criança sozinha e aprendera a inventar amigos e uma realidade muito própria, assim podia passar bem pela solidão que comumente sentia.

Foi em seus 10 anos que sua vida mudou completamente. O seu pai desonrou uma mocinha que ainda estava na adolescência. Os dois fugiram juntos, isso aconteceu no Natal de 1929. Durante a fuga, porém, os familiares da jovem encontraram os dois e seu pai foi morto com golpes de enxada. Dizem que nunca encontraram provas de que foram os familiares dela quem matara seu pai, mas todos na vila sabiam a procedência do crime. Ninguém foi preso.

Ele ainda lembrava de sua mãe recebendo a notícia. Era ainda noite, início da madrugada do dia santo. Ela foi acordada por batidas na porta. Chorou a madrugada inteira. Os dois passaram o Natal no velório do homem, ele foi enterrado e nunca mais voltou-se a falar no assunto. Seu pai sequer era mencionado.

Com os acontecimentos daquele Natal, sua mãe se jogou no trabalho pesado e passou a deixar de ter tempo para ele. No começo, foi estranho aquela mudança de atitude, mas ele logo percebeu que não havia mais retorno para sua mãe.

Agora, Natal de 1945, ele se perguntava se passaria mais uma vez a data sozinho, enquanto sua mãe servia meses em um bar. Nunca casara, continuava sem um amigo sequer para chamar de seu. Era o esquisito da vila, o filho do homem morto após tentar fugir com uma criança. Aquela era um estigma que ele jamais conseguira apagar. Sua mãe era a pobre coitada enganada, mas ele era uma herança do homem.

No Natal passado, ele chegara a pensar em jogar-se da ponte, na saída da vila, mas decidiu de seguir com aquilo depois que houve uma comoção com o caso de uma mulher que flagrara o marido com a mãe dela e, na raiva, debilitara permanentemente a perna dos dois. A velha morreu semanas depois de infecção. Ele agora estava preso a cama. Ela levava muitos “amigos” para sua casa. Boatos de que “conversava” com esses amigos em frente ao marido aleijado.

– Nesse Natal, eu vou vivenciar o espírito natalino. Se é para fazer isso sozinho, então que assim seja.

O primeiro passo foi fazer uma oração, pedindo proteção e que agradecendo por mais um dia de vida. Afinal, aquele poderia ser o último de sua vida. Começou a cantarolar uma cantiga natalina que aprendera com sua mãe.

Foi quando tirava o jantar do forno que percebeu o primeiro barulho. Teria sua mãe voltado para casa mais cedo e acompanhada de um homem bêbado? Era só o que lhe faltava acontecer mesmo.

Caminhou até a fonte do barulho, mas nada encontrou lá. Sentiu um arrepio atrás do pescoço, como se fosse uma premonição.

– Nesta casa nenhum mal acontece. Principalmente, na época de Natal, onde eu me escondo nessa concha da festividade para ser, finalmente, feliz. – ele disse em voz alta.

Voltou para a cozinha e começou a servir-se com o jantar que havia preparado. Um novo barulho o deixou incomodado, mas um pensamento íntimo lhe disse que ignorasse e que não se tratava de nada demais. Era Natal. Começou a cantarolar outras cantigas natalinas que conhecia.

Finalizou o seu jantar, organizou a louça, foi para o seu quarto e dormiu.

Um novo barulho. Ele não acordou.

Sua mãe saia escondida de seu quarto, malas prontas. Um homem a aguardava do lado de fora. Bêbados, os dois se aventuravam pela estrada, sem um destino certo, mas com a intenção de se distanciar o máximo possível daquela vila.

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