24 de dezembro de 1973

Eles chegaram na vila fugidos. Todo mundo sabia que eles eram procurados na cidade grande porque faziam parte do movimento estudantil que se espalhara pelo país, lutando pelo retorno da democracia e dos direitos individuais.

– Eles são problema. – disse Dona Lurdes, logo no dia da chegada dos jovens. Isso foi antes da história do grupo de resistência estudantil se espalhar pela vila e todos virarem a cara para os jovens.

Não era que apoiassem ou deixassem de apoiar a Ditadura. Provinciana como aquela vila era, os moradores queriam apenas estar longe de problema. A verdade é que a Ditadura não tinha trazido mudanças práticas na vida dos moradores daquele lugar esquecido por Deus. Ali não tinha polícia, nem exército e mal tinha estudantes. Não era um lugar de preocupação das autoridades.

Era justamente essa tranquilidade que muitos moradores não queriam perder com a chegada dos possíveis estudantes. Por isso, viravam os olhares quando eles passavam e se fechavam em casa quando paravam para comentar alguma coisa e se enturmar.

Foi assim nos primeiros dias. As coisas melhoraram a partir do nono dia, com as pessoas se preocupando mais em enfeitar suas casas para Natal do que com os jovens que haviam chegado. Notícia de ontem não alimentava as conversas de hoje. Era necessária uma novidade, uma traição, uma filha que perdeu de ano, alguém que menstruou pela primeira vez, uma campanha de vacinação, falência, morte, nascimento… Ufa! Qualquer coisa que alimentasse as rodas de discussão.

E quando tudo parecia na maior tranquilidade, novos visitantes chegaram à vila na véspera do Natal. Eram militares e, segundo anunciaram, estavam atrás de um grupo de marginais, que era acusado de sequestrar o governador do Rio de Janeiro. Ninguém sabia desse tal sequestro, ou desse tal grupo, ou de nada. Ninguém queria confusão e sabia que quanto menos alegassem saber, mais tranquilidade teriam.

Os militares começaram a vasculhar a cidade, começando pelos bares, passando pelos pequenos comerciantes, até iniciar a varredura nas casas. Esse era o primeiro contato daquela vila com a Ditadura Militar e eles não estavam gostando de maneira alguma.

– Vai ter churrasquinho de estudante esta noite. – disse um dos soldados.

– Esse lugar me dá arrepios. Parece que estamos em outra época. – comentou outro.

– Deixa de ser frouxo. Vamos pegar aquele bando de vagabundos e seguir o nosso rumo. Quero a bonificação que prometeram na semana passada. – retomou o primeiro.

A vila não tinha muitas ruas e estavam já na rua onde os jovens estudantes tinham se escondido. Tinha anoitecido e uma garoa fina começou a cair. Seguiram abrindo portas, adentrando casas de desconhecidos e vasculhando cômodo por cômodo.

– Os jovens foram avistados. – contou um dos soldados. – Vamos!

Saíram da casa sem qualquer pedido de desculpa e seguiram para um bar onde, supostamente, os jovens estavam escondidos. A chuva começou a cair mais forte, deixando os soldados encharcados. Eram quatro no total.

Arrombaram a porta do bar, com as armas a postos, prontos para qualquer engraçadinho que tentasse alguma gracinha. Não havia ninguém lá. Os donos do estabelecimento deviam estar celebrando a noite de Natal e os estudantes não estavam no bar. Descobriram que eles haviam fugido.

Duas horas depois, saíam daquela maldita vila. A chuva cada vez mais forte fez com que eles não vissem o buraco na estrada. Um acidente. Todos mortos. Às 22h28.

Naquele mesmo momento, o grupo de estudantes agradecia a Dona Lurdes por tê-los acolhidos quando soube que os militares se encaminhavam para o bar.

– O prazer foi meu. Invadiram minha casa sem qualquer permissão. Que a maldição dos fundadores os alcance. – ela não sabia que já havia alcançado.

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