24 de dezembro de 1918

Ele estava com bastante sono. Acordara com as galinhas naquele dia e já estava animado com à noite que se aproximava. Seus pais estavam fora, finalizando os trabalhos da fazenda antes de começar os preparativos para a ceia de Natal de logo mais.

Ele terminou de alimentar os porcos e entrou em casa, sentindo fedor que o chiqueiro tinha deixado em seu corpo. Iria tomar um banho e em seguida ajudaria sua mãe. Bocejou novamente, com um sono estranho tomando conta de seu corpo.

A verdade era que mesmo com tantas atividades para fazer em sua casa diariamente, ele ainda sentia um certo tédio. A vila onde morava não era grande, tinham ainda poucas casas, em torno de cinquenta. Ele queria diversidade, talvez fazer coisas diferentes do que apenas ir tomar banho no rio que cortava a vila ou entrar no bosque para fazer a colheita de frutas.

Chegou a noite, mas ele ainda sentia aquela sonolência anormal. Estava arrumado para ir à missa, mas acabou ficando em casa. Sabia que se alegasse sonolência não teria o apoio de seus pais, então disse estar com tontura e um pouco de enjoo. A desculpa funcionou e seus pais lhe deixaram na cama, dizendo que qualquer problema corresse à igreja pedir ajuda. Sua mãe ainda perguntou se ele desejava companhia, mas ele a liberou. Sabia o quanto a missa era importante para ela.

Deitou-se na cama e deixou-se consumir por aquele sono que tanto queria possuir o seu corpo. Fechou os olhos e perdeu a noção do tempo, do espaço e de quem era.

Acordou com um barulho estranho na sala. Pensara que alguém havia chamado o seu nome e levantou-se para investigar. Sentia-se completamente livre do sono estrangeiro que dominara o seu corpo anteriormente.

Ao chegar à sala, não encontrou nenhuma vivalma ou qualquer explicação para o barulho que ouvira do seu quarto. Ouviu novamente o barulho e percebeu que ele agora vinha do quarto. Como seria possível? Resolveu ignorar. Pegou um pote de água que estava em cima da pia e jogou no rosto. Deu a volta e entrou em seu quarto. Viu algo se movendo embaixo da cama. Ficou paralisado.

Uma cobra saiu debaixo da cama, arrastando-se com fúria para dar o bote.

– Deixe-me em paz! – ele pediu inevitavelmente, sem dar-se conta de que falava com uma cobra.

– Não. – para a sua surpresa, ela respondeu. – Você foi o herege que deu às costas ao seu Cristo, então estou no meu direito de tomar para mim a sua alma.

E, diante dos olhos do menino, ela se transformou em um ser que é quase impossível descrever a bizarrice. Sua pele ainda lembrava uma cobra e ele tinha narinas finas o ofídicas, seus olhos eram estreitos e sua boca cheia de escárnio. Talvez fosse o Diabo em pessoa, quem sabe tentando possuir o seu corpo. Possessão não era um termo estranho para quem era cristão.

Correu, pensando se conseguiria fugir rápido o suficiente para chegar à igreja. A resposta era negativa. Mal conseguiu sair do quarto e foi interceptado por uma das garras podres do monstro. Chutou-lhe com força, sabendo que tinha forças ao menos para lutar pela sua alma. Não iria se deixar levar dessa forma.

Quando estava conseguindo escapar pela porta, um novo demônio apareceu em sua frente. Este era ainda maior do que o primeiro, tinha um chifre, pele escamosa, olhos negros e maliciosos. Ele pensou em pular a janela, mas tinha certeza de que seria interceptado. Precisava escolher bem o seu próximo passo e atacar o demônio menor parecia ser a jogada mais esperta.

Correu de volta ao demônio maior, derrubando-o com um único golpe. Ia partir para cima dele novamente, mas foi golpeado e atacado pelo demônio maior.

– Solte-me, demônio. Não irás levar minha alma!

– Sua alma já é minha, imundo. – ele disse de volta e desferiu um último golpe.

Tudo ficou escuro. O relógio marcava 22h28.

Acordou amarrado. Já era dia. Sua mãe chorava. Tinha um hematoma no rosto e parecia com a perna imobilizada. O seu pai estava com o semblante triste da mesma forma, mas não chorava. Ele parecia conformado. O que estava acontecendo?

– O que houve? Alguém me desamarre, por favor. – gritou.

– Eles já estão chegando, filho. Você vai ficar bem. – respondeu seu pai, mantendo um distanciamento na voz.

Foi então que ele percebeu que fora enganado pelos demônios. Atacara seus próprios pais sem saber.

A carruagem chegou. Não houve pedido que mudasse a decisões de seus pais. Ele implorou. Nada. Foi levado a um sanatório com a promessa de que seria liberado em alguns meses. Nunca mais voltou a ver a vila.

 

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