24 de dezembro de 2006

A chuva caía bastante lá fora. Todo mundo estava se arrumando porque a ceia de Natal iria acontecer em algumas horas. A tradição da família era sempre a mesma: amigo secreto, retrospectiva do ano, bingo e, por fim, a ceia de Natal. As celebrações começavam às 19h e seguiam madrugada adentro. Petiscos eram servidos durante toda a noite, mas a ceia propriamente dita só acontecia depois da meia noite.

– Estou rechonchuda, mas linda! – ela disse, olhando-se no espelho.

Estava já finalizando o seu oitavo mês de gestação e seu filho deveria nascer nos próximos dias. Como estava feliz por finalmente avistar o rostinho lindo do seu bebê – o qual vinha imaginando muito nos últimos meses. A gravidez não fora planejada, mas ela já vinha maturando a ideia de ter um filho antes do incidente acontecer. A descoberta foi um momento de felicidade para ela e para o marido.

Anderson gritou o seu nome, dizendo que havia liberado o banheiro para que ela pudesse tomar o banho e começar a também se arrumar. Sua mãe e seu irmão mais velho estavam hospedados com eles e sua outra irmã, que também morava na cidade, viria mais tarde para a ceia com os dois filhos. A ideia de ter a casa cheia a deixava animada. Sempre acreditara que o Natal fosse uma festa familiar e ela e o marido se revezavam para que pudessem sempre comemorar a data com suas famílias – um ano com a dele, outro com a dela. Às vezes, as duas famílias também se encontravam.

O peso da barriga tornava tudo mais difícil. Era verdade que a gravidez era uma dádiva que apenas as mulheres poderiam conhecer. Gestar uma criança em seu ventre e senti-la crescer, se desenvolver e viver dentro de si era uma sensação inexplicável. Mas também tinha o desconforto pelo peso da barriga, a bagunça hormonal, dentre outras tantas coisas que geralmente não são contadas nas histórias da maternidade.

Ainda se lembrava como todos diziam a maravilha que era a gravidez – pensou, enquanto saia do banho e começava a se enxugar com dificuldade. Ela saiu da casa de sua irmã completamente animada. Nas semanas seguintes, porém, foi descobrindo um lado da gravidez que ninguém nunca lhe contara. Mas também jamais pensou em desistir. Sabia que estava preparada para ser mãe, mesmo que o medo da maternidade fosse grande em seu peito.

A médica tinha lhe dito que a criança deveria nascer na primeira quinzena de janeiro. Seu marido, muito supersticioso, explicou como os dois teriam que aturar um capricorniano dentro de casa. Ele também acreditava na maldição natalina da vila e estava muito apreensivo porque ela havia se recusado a viajar para passar a festa com a família dele àquele ano. Disse que as chances de algo dar errado eram grandes e os dois não poderiam correr aquele risco por causa do pequeno bebê. Ela não lhe deu ouvidos. Não era assim que as coisas aconteciam.

– Amor, por favor, faz isso por mim. – implorou ele.

– Para de bobagem. Esse ano é da minha família e, de qualquer forma, não estou com disposição para viajar.

– Prometo que passamos os próximos cinco natais com sua família, se você ceder apenas dessa vez.

– Não e não. Essa é a minha resposta final. – ela sentenciou.

Após se arrumar, ela desceu e, pouco depois, sua irmã chegou, acompanhada do marido e dos filhos. Uma vez que todos estavam arrumados, os petiscos foram servidos e o amigo secreto começou. Ela havia tirado a mãe e sido tirada pelo próprio marido. Ele lhe dera um quite de beleza e um porta retrato com uma das fotos que tiraram juntos durante um ensaio que fizeram em seu sexto mês de gestação.

Foi quando o bingo começou que tudo desandou. Ela sentiu contrações fortes em seu ventre e, inicialmente, achou que era apenas o filho mudando de posição em seu útero. Mas as contrações seguiram fortes e ela contou a situação para a mãe.

– O bebê está chegando! Precisamos levá-la ao hospital. – a mãe lhe disse.

– Ai, meu Deus! – exclamou o marido.

– Anderson, pega as coisas da Cátia e do bebê e nos encontra no carro. Aqui na vila não tem hospital, precisamos levá-la até a cidade. Rápido! – disse sua mãe, tomando conta da situação.

Minutos depois, Cátia, Anderson, Dona Olívia e Ana Lúcia (irmã de Cátia) estavam no carro. O carro começou a acelerar, Anderson visivelmente nervoso. “Precisamos sair da vila”, sussurrava, sem prestar muita atenção nos gemidos de dor que sua esposa soltava.

Eles estavam quase na fronteira da vila, quando sua esposa começou a sentir as contrações do parto. Havia chegado a hora. Dona Olívia pediu que Anderson encostasse o carro para que ela pudesse ajudar no parto, mas ele se recusou.

– Meu filho vai nascer longe dessa vila. Ele vai ficar bem! – exclamou ele com vigor, em um tom decidido.

Dona Olívia começou a argumentar e a brigar, mas ele não se deu ao trabalho de responder. Sabia que qualquer desconcentração poderia resultar em um acidente, e isso era tudo o que ele não queria naquele dia, naquela situação. Sua esposa e a família dela podiam não acreditar na maldição da vila, mas ele sabia que ela era real.

Conseguiram. Sua esposa ainda estava em trabalho de parto quando chegaram na cidade mais próxima. Alguns minutos depois de dar entrada no hospital, sua filha chorava pela primeira vez, respirando o ar da vida.

Eles ainda não sabiam, mas às 22h28, dois minutos depois que eles ultrapassaram a fronteira da vila, o irmão de Cátia teve um infarto fulminante. O dia feliz também seria um dia difícil para a família.

 

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