24 de dezembro de 2019

Só se falava em como a economia brasileira estava em colapso com um presidente que se mostrava incapaz de governar. Era uma série de declarações risíveis e que demonstravam o despreparo daquele governante que, de maneira surpreendente, havia sido escolhido pela maioria dos brasileiros para governar.

A conversa sobre economia estava espalhada por toda a avenida principal. O Brasil havia acabado de anunciar que se a Argentina e o Paraguai não se retirassem do Mercosul, ele mesmo iria sair. Tudo havia começado com um contratempo comercial entre os três países, que foram seguidos de declarações polêmicas e insinuações do presidente brasileiro.

Mas o que Rebeca realmente queria era chegar em casa, descansar as pernas em seu sofá, pedir uma comida delivery na primeira franquia de fast food da cidade e assistir ao capítulo de sua novela favorita. Tinha vindo morar naquela vila – agora cidade – há apenas dois anos, mas já achava o lugar extremamente tedioso. Era acostumada com cidade grande, variedade de entretenimento, cinema, balada, pessoas.

Chegara à vila após ser demitida de seu antigo emprego. Prestou concurso para a prefeitura daquele lugar e conseguira passar com louvor. Era morar naquele lugar inóspito repleto de pessoas crentes ou ficar desempregada na cidade grande que tanto amava.

Boatos davam conta de que ela morava na mesma rua em que, séculos atrás, um casal de europeus havia sacrificado seus hóspedes negros em busca da vida eterna. Era algo assim, ela tinha certeza. Um bando de crédulos, que acreditavam em qualquer lenda porque não tinham mais o que fazer.

Dormiu ali mesmo no sofá.

Acordou o sol já estava alto. A conversa continuava sendo a mesma polêmica do dia anterior – ou como a filha da vizinha havia fugido com uma prima na noite anterior. Isso dependia do quanto você gostava de fofoca ou economia. O comércio da cidade amanheceu aberto, apesar de ser véspera de Natal. O consenso era de que as lojas deviam fechar até o final da tarde.

No almoço, olhou para a sua casa sem qualquer decoração de Natal e sorriu. Sempre odiara esta data, uma convenção cristã roubada do paganismo que tanto criticavam. O Natal nunca fora sobre o nascimento de Cristo. Isto é, será que ele realmente existiu? Ela duvidava que algum homem realmente poderia ser tão abnegado e bom como diziam que ele havia sido.

Riu da história toda, enquanto abria um vinho. Passou a tarde bebendo sozinha. Recusou a ligação de sua mãe, ignorou quando seu irmão a chamou no WhatsApp e aproveitou o seu jantar solitário e tardio.

Ligou a TV. Filmes de Natal em todos os canais. Encontrou um filme de terror no serviço de streaming que assinava. Ao menos poderia fugir das bizarrices que a sociedade moderna exige de você no famigerado feriado natalino. Sem panetones, músicas de Natal ou mesmo votos de paz e amor. Apenas tristeza, sustos e um pouco de humor irônico.

Uma batida na porta. Atendeu. Ninguém estava lá.

Voltou para o seu sofá, indignada que tenha caído nesse truque infantil.

– Vocês não deviam estar celebrando esta data querida? Por que não me deixam em paz? – reclamou, sentando-se novamente no sofá.

Uma nova batida na porta. Resolveu não atender. As batidas continuaram, insistentes. A paciência de Rebeca começou a morrer. Iria ensinar a essas crianças como se trata quem faz esse tipo de infantilidade.

– O QUE É? – berrou, já abrindo a porta.

Ninguém.

Ouviu um barulho na cozinha. Fechou a porta, sentindo-se um pouco assustada.

– Deve ser o filme de terror que estou assistindo. – disse a si mesma.

Um novo barulho na cozinha.

Caminhou devagar, passo a passo, tentando ouvir qualquer barulho novo. As luzes da casa apagaram. Ela gritou. Enquanto gritava, sentiu a dor lancinante. Berrou novamente, antes que não pudesse mais. Recebera outro golpe, dessa vez na garganta.

O relógio marcava 22h28.

No dia seguinte, seu corpo fora encontrado no chão da cozinha, a casa saqueada. O crime se tornou o comentário geral da pequena vila. Dois dias depois, a filha da vizinha (que havia fugido com a prima) confessou o crime na delegacia. A prima, que fora a cabeça do crime, não fora encontrada. Segundo ela, as duas queriam vender os móveis de Rebeca para arrecadar dinheiro, mas ela se arrependeu após o crime e resolvera se entregar.

E assim Rebeca se tornava estatística na estranha noite de 24 de dezembro daquela vila.

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