O romance entre o menino e a estrela

Foi num dia em que se sentia completamente perdido que ele a viu pela primeira vez. Nunca tinha reparado nela. Talvez porque o seu brilho não era o maior dos céus. O fato é que ele nunca tinha a visto antes.

Foi com muita surpresa que seu olhar focou naquela estrela. Ela parecia estar ali todas as noites, simplesmente esperando por alguém que desviasse o olhar das grandes constelações. Ele finalmente a estava enxergando e parecia não fazer sentido que ninguém mais a visse da mesma forma que ele.

Era uma mistura de sensações e sentimentos. Talvez estranho para qualquer pessoa que não fosse ele. Era impossível explicar aquela sensação. O brilho singelo da estrela lhe proporcionava mais do que felicidade, ele podia sentir uma esperança crescendo dentro dele.

Os últimos dias tinham sido um turbilhão de sentimentos. Havia terminado um relacionamento, seus pais enfrentavam problemas financeiros, seu melhor amigo se mudara de cidade e uma tia muito querida descobrira uma doença grave. Parecia que ele estava se afogando em situações bizarras e a estrela lhe entregara a mão para que ele não se afogasse. Era a sua âncora.

Todas as noites, ele se sentava em sua varanda, observava o céu e flertava com aquela estrela tão linda. Algumas vezes ele estava ouvindo uma música especial, outras fazia aquilo no silêncio de seus pensamentos. Calava as vozes dentro de si, dando espaço para que o silêncio balsâmico tomasse conta de si. Por alguns minutos, se permitia não pensar em nada que não fosse o brilho esperançoso daquela estrela.

Com o tempo, a estrela passou a ser sinônimo de terapia para ele. Nem sempre ela conseguia apagar a tristeza cumulativa em seu peito, mas o fazia esquecer-se dos problemas por alguns minutos e isso era o suficiente para ele. Ele sabia que ela não poderia lhe trazer felicidade, mas não acreditava mesmo que pudesse ser feliz… então não fazia diferença.

Certo dia, cansado de tudo e pensando em acabar com a própria vida, o menino foi buscar por forças em sua adorada e amada estrela. O céu nublado não permitiu que os dois se encontrassem. Naquele romance, não havia um número para o qual pudesse ligar ou um endereço para onde pudesse ir ao encontro do seu amor. O único caminho para um encontro dos dois era um céu limpo – e aquilo era-lhe impossível no momento. O que fazer?

– Oh, amada estrela. Mostra-te para mim. Preciso de sua força e do seu brilho para restaurar a minha esperança. – ele clamou, gritando para o céu.

Silêncio.

Sem resposta.

Deitou-se em sua cama e tirou um cochilo. Queria dormir e não acordar nunca mais. Achou que a insônia iria consumi-lo, mas foi arrematado por um sono repentino e estrangeiro.

Dormiu.

Em seu sonho, encontrava sua amada estrela. Ela estava ainda mais brilhante do que ele imaginava e ele próprio era uma estrela. Os dois jaziam juntos e repentinamente ele teve consciência de que estava sonhando. Porém, o sonho tinha lhe dado uma resposta. Assim que acordasse, acabaria com a própria vida e viraria ele mesmo uma estrela – estando para sempre ao lado de sua amada.

– Meu amor, achas mesmo que tudo resolve-se desta maneira simplória? – questionou-lhe a estrela. – Se bastasse acabar com a própria vida para chegar a estrela, praticamente todos fariam isso, livrando-se das dores. É preciso aprender com sua tristeza, encontrar um ponto de equilíbrio e buscar ser feliz. Se viverdes uma boa vida, então nos encontraremos quando dela saírdes naturalmente. Caso seja uma má pessoa ou finalize ela precocemente, tenho medo de para onde irás. Vivas e sejas feliz. Faças isso por mim.

Esse discurso era tudo o que ele lembrava de seu sonho. Duas noites depois, quando finalmente o céu estava limpo novamente e ele podia ver sua amada mais uma vez, ergueu os olhos para o céu e agradeceu. Ele sabia que se tratara apenas de um sonho, mas a estrela fora o símbolo de esperança que ele guardara e conseguira ajudá-lo em seu momento mais difícil.

Ele seria feliz e viveria sua vida até que naturalmente partisse dela. Faria isso porque queria ser também uma estrela após sua morte. Estamos falando isso metaforicamente, mas quem disse que não somos capaz de gerar a nossa própria luz, tal qual uma estrela?

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