A caixinha da imaginação

Ele não lembrava quando havia recebido aquele artefato. A verdade é que a sua primeira lembrança na vida havia sido com aquele caixinha. Era dali que tirava todas as suas ideias de brincadeiras, cartas, histórias e seja lá o que necessitasse de criatividade. Com o tempo, o misterioso artefato passou a ser conhecido como caixinha da imaginação.

Ele a carregava para todos os lados. Não que temessem que levassem ela quando estivesse longe, mas como saberia quando precisaria usar de sua criatividade? Essas coisas não marcavam data e nem horário na agenda.

Quando precisava usar da imaginação, ele colocava a mão dentro da caixinha e repentinamente via a sua mente recheada de novas ideias. Fora assim desde sua infância. Era filho único, então aprendeu que precisava se divertir sozinho, porque nem sempre podia contar com os coleguinhas.

Para criar uma brincadeira, ele colocava sua mão dentro da caixinha e todas as instruções apareciam em sua mente. Foi assim que criou filmes, novelas, desenhos, programas e histórias diversas.

Ao fim de sua infância, a criatividade que a caixinha lhe proporcionava passou a ter uma nova função. Ele sempre gostara de ler, mergulhar em um mundo criado por palavras. Com a ajuda da caixinha, esse mundo se materializava em sua cabeça e ele quase podia se imaginar participando de cada cena que lia silenciosamente em seu quarto.

Aos poucos, as pessoas começaram a se acostumar. Todos diziam que a caixinha da imaginação não era apenas um artefato, mas parte da alma do garoto. Ele precisava dela para viver, caso contrário seria capturado pela sobrevivência. Não que fosse errado sobreviver. Ao contrário, era mais do que necessário. O problema é quando deixamos de viver para apenas sobreviver. Que bem há nisso? – ele se perguntava.

Com o passar dos anos, enquanto uns descobriam o primeiro amor, ele se interessava cada vez mais pelas palavras. Um dia, sem qualquer aviso, a caixinha lhe sugeriu que começasse ele mesmo a escrever as suas próprias histórias. Ela continuaria alimentando-o com imaginação e ele transformaria essas ideias em palavras, em histórias completas.

A princípio aquela ideia lhe parecia muito estranha, mas ele foi se acostumando com ela. Afinal, que mal havia em se deixar levar pelo desejo de criar histórias? De começo, ele escrevia apenas para si e, às vezes, se arriscava em mostrar uma ou outra para os amigos mais próximos ou seus familiares.

Ao receber um elogio por um conto para uma aula de redação, ele começou a acreditar que suas histórias realmente eram boas. Resolveu então se arriscar um pouco mais. Criou um blog onde foi colocando os seus primeiros contos.

A caixinha da imaginação, porém, estava cada vez mais ambiciosa. Ela começou a incutir a ideia de que ele deveria criar histórias maiores, quem sabe um romance? Como sempre, ele resistiu a princípio, mas acabou cedendo àquela estranha ideia. E se ele realmente tivesse potencial para ser um escritor? Quanto mais ele escrevia, mais acreditava que aquele era o seu destino.

Um dia, porém, tudo mudou. Ele estava atrasado para uma prova e acabou esquecendo a sua caixinha em casa. Seus pais saíram para trabalhar e a casa foi fechada. Enquanto o menino terminava sua prova, alguma coisa o incomodava.

Mais tarde, chegando em casa, descobriu que ela havia sido arrombada e assaltada. Alguns itens foram levados pelos bandidos, a caixinha da imaginação dentre eles. O jovem ficou preocupado, depois triste e dominado por uma sensação de impotência. Será que os bandidos aprenderam a usar sua bela caixinha? Algum dia voltaria a encontrá-la.

Os dias foram passando e a tristeza do menino se afastando. Mas ele voltou diferente. Terminou o colégio e entrou na faculdade de Direito. Formou-se. Passou em um concurso. Conseguiu estabilidade financeira. Casou-se. Não teve filhos. Morreu.

Quanto a mim, gostaria que ao menos tivesse sido o autor do roubo. Ah, como eu faria bom uso de uma caixinha da imaginação!

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