A despedida

Ele apoiou o paletó na cadeira e sentou-se no sofá. Podia ainda sentir o cheiro do amado, mesmo sabendo que dessa vez a despedida tinha sido definitiva. Não pode evitar que uma lágrima escorresse pelo seu rosto, percorrendo a superfície até escapar pelo seu queixo, indo rumo ao chão.

Foi com dificuldade que ele apoiou o rosto nas mãos e se pôs a chorar. Sabia que estava sozinho na casa, mas ainda assim parecia muito pessoal esse momento. Um choro de despedida é algo que não pode ser visto nem mesmo pelos espíritos. Ou pelos raios de sol. Ou pelo vento que teima em invadir as casas.

Foram 65 anos juntos. Trocaram o primeiro beijo no último ano do colégio, escondidos. Fingiram durante semanas que aquilo não tinha acontecido. Quando não conseguiam mais esconder o que sentiam um pelo outro, passaram a se encontrar às escondidas, enquanto apresentavam namoradas para a família e para a sociedade.

Aos 23 anos, ele quebrou o braço direito quando seu pai flagrou os dois em um beijo terno de despedida. Ficara em situação melhor do que seu amado, que perdeu dois dentes e fraturou o braço e a clavícula. Saiu de casa após isso. Foi expulso pelo pai durante uma grande briga, apesar de que estava decidido a afastar-se daquele homem. Trocou umas poucas palavras com ele novamente apenas em seu leito de morte, quando ele lhe disse que nunca se arrependera de ter se livrado de uma “bichinha nojenta”.

Ele levantou-se do sofá. Não sentia falta do pai em momento algum mais. Não sentiu emoção nenhuma quando o viu pela última vez. Era completamente diferente do que sentia agora. Sua trajetória havia sido sofrida, porém com muito amor.

– Sua trajetória foi sofrida até aqui – e pode continuar assim. Mas lhe garanto que não vai faltar amor! – foi o que Rafael lhe disse, quando os dois voltaram a se encontrar novamente, dessa vez sem a necessidade de fingir à sociedade que namoravam mulheres.

Após o primeiro flagra, os dois se separaram por sete anos. Quando voltaram de novo foi algo ainda mais maduro e especial. Dessa vez, eles não tinham mais vergonha do que sentiam. Não saíam anunciando a sua sexualidade, porque eram tempos difíceis, mas não estavam mais interessados em esconder o amor que sentiam um pelo outro. Não era mais amantes, mas companheiros. Namoraram por dois anos, antes de finalmente resolverem morar juntos.

– Eu te amo tanto! – ele disse, indo à cozinha beber um copo de água. Falava como se o companheiro ainda estivesse ao seu lado. E talvez ele sempre estivesse mesmo. Será que as pessoas que amamos nos deixavam realmente? Ou será que viviam sempre ao nosso lado? Quem teria essa resposta?

Rafael poderia lhe dizer algumas palavras consoladoras. Religioso como era, teria algum ensinamento que pudesse lhe passar e transmitir consolo. Por que ele nunca se interessara por religião?

Foi ao quarto e trocou-se por uma roupa mais casual. Queria passar o dia sozinho, deitado em sua cama e afogado em lembranças, mas seu sobrinho insistira que ele devia passar uns dias em sua casa. Todos temiam que aquele velhinho não aguentasse tamanha despedida. Ele quase desejava que não aguentasse. Mas veria o seu amado? Ele só queria alguma certeza.

– Você precisa saber onde buscar por essas respostas. – lhe dizia Rafael.

Certa vez, quando os dois já moravam na atual casa, Rafael insistiu para que o marido fosse com ele ao centro espírita.

– Eu não acredito nessas coisas. – respondeu de maneira contundente.

– Você sequer se permite a dúvida e por isso desconhece muitas das verdades da vida. Não digo que eu tenho essas respostas ou que o meu espiritismo tenha, mas enquanto estou buscando por algo, você está acomodado ao desconhecimento.

Os dois brigaram muito depois dessa resposta. Não costumavam ter brigas grandes, geralmente eram pequenos desentendimentos que não iam muito longe. Também jamais chegaram a pensar em se separar. Sempre tiveram extrema certeza de que pertenciam um ao outro e que os momentos ruins e de brigas nunca foram maiores do que o amor e o bem-querer que sentiam um pelo outro.

Demorou muito tempo para que sua irmã aceitasse sua sexualidade. E quando isso aconteceu, foi uma grande dádiva para ele – que finalmente voltara a ter contato com alguém de sua família. Sua mãe faleceu sem lhe dirigir a palavra novamente e, à época, ele chorou por horas com a cabeça sobre o colo do amado. Rafael era sempre bom com as palavras e via a morte apenas como uma passagem para outra vida. Ele nunca entendera aquilo.

Adentrou o quarto deles e viu o livro que o amado tinha deixado na mesa de cabeceira. Ele estava lendo O Pequeno Príncipe, mas jamais chegou ao final da história. Havia anos que ele dizia que iria terminar esse livro, mas quando finalmente resolveu colocar o projeto em prática, foi levado da vida antes de chegar ao final.

– Um livro que um dia chegarei ao fim é O Pequeno Príncipe. Eu conheço a história, claro, e comecei a lê-lo há alguns anos. Mas pretendo terminar. – Rafael lhe disse, no início dos anos 2000, quando os dois conversavam sobre literatura.

As pálpebras começaram a pesar e ele deitou-se na cama. Talvez pudesse dormir um pouco antes da chegada do sobrinho. Não conseguiu evitar uma última lembrança.

Horas antes de Rafael lhe deixar, os dois tiveram uma conversa.

– Acho que não consigo resistir muito mais. Meu corpo cansa e meu espírito quer descansar. – ele lhe disse.

– Eu te proíbo de me deixar sozinho aqui.

– Acho que Deus sabe muito o que faz. Ele sabia que eu não conseguiria ser deixado sozinho aqui.

– Eu não consigo…

– Consegue, porque você sempre foi o mais forte dos dois. Mas não se preocupe, meu amor, vou preparar as coisas para te receber lá.

– Eu quero que você saiba que minha vida não foi fácil, mas jamais faltou amor. Você me amou o suficiente e me fez sentir tanta felicidade quanto o possível. Eu não me arrependo de nada, nem mesmo dos momentos difíceis que passamos juntos.

– Como poderia? Foram nesses momentos que eu tive mais certeza de que amava você.

E com aquelas últimas palavras ecoando na cabeça dele, o homem dormiu. Acordaria horas depois, mas aproveitaria aquele momento para ir ao mundo dos sonhos – onde os dois amantes poderiam estar reunidos mais uma vez.

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