A história do homem sem coração

Era uma vez um homem que nasceu sem coração. Ele fazia tudo o que as outras pessoas faziam: acordava, fazia suas refeições, conhecia pessoas, trabalhava, dormia. Até conseguia simpatizar com algumas coisas, fazer amigos pelas lembranças, mas era impedido de sentir. Não conseguia sentir nem raiva, nem ódio, nem amor. Não podia simplesmente amar alguém porque era desprovido de coração.

Pode parecer que essa seria uma coisa boa. Afinal, quando temos coração simplesmente estamos fragilizados, próximos de sermos machucados. Quem ama, sofre. Uma palavra, um gesto, uma expectativa furada… todas essas coisas fazem parte do dia a dia e podem ser extremamente perigosas, vorazes.

– Como é não ter um coração? – os seus amigos constantemente lhe perguntavam. – Você se sente oco? Incompleto?

Ele sabia que aquelas palavras deveriam lhe machucar, mas ele estava blindado pela ausência de coração. Ninguém poderia machucá-lo. Nunca. Ele havia aceitado que essa era uma bênção, pois todos reclamavam de como era horrível a tristeza, a saudade e a dor de um coração partido.

Certo dia ele sonhou. O sorriso de uma mulher o enfeitiçava e ele sentia alguma coisa, mas não sabia definir o que seria. Raiva? Ódio? Amor? Que sensação era aquela que ele nunca experimentara antes? Acordou suado e sentindo-se estranho.

A partir daí, ele passou a ficar obcecado por sentir. O que poderia fazer para sentir sem um coração? Experimentou a hipnose, experimentou simpatias e bruxarias. Até mesmo se cortou repetidas vezes, mas nada disso fazia com que ele sentisse alguma coisa. Ele estava completamente oco. Ficou paranoico.

A todo lugar onde ia, acreditava que as pessoas estavam olhando para ele, apontando e comentando sobre o fato de ele ser incapaz de sentir. Deveria se sentir raivoso ou temeroso com aquilo, mas nenhuma das sensações lhe veio a tona. Sentiu inveja.

Inveja.

Poderia aquele ser o começo de um longo nascimento de sentimentos, mas as coisas não eram tão fáceis assim. Ele soube que só teria capacidade de carregar um único sentimento em toda a sua vida e o que havia sido despertado era a inveja. Teria que conviver com ela para sempre, sabendo que jamais se livraria dela e jamais conseguiria fazer nascer nenhum outro sentimento.

Observada as pessoas felizes nas ruas e sentia inveja delas. Por que ele também não podia sentir aquelas coisas? Por que não poderia ser normal como as outras pessoas? Ele queria muito que tudo mudasse em sua vida, mas estava preso a uma maldição que não havia escolhido.

Não conseguia mais desenvolver atividades normalmente. Passava a maior parte de seu trabalho sentindo inveja dos colegas e clientes. Entrava na internet para ver as notícias e sentia inveja das histórias que lá lia. Ele era uma fonte inesgotável de inveja. Era apenas o que conseguia sentir.

Mesmo não sentindo outras coisas, passou a se sentir sobrecarregado. Queria amar, mas era impossível. Então morreu. Em sua autopsia a falta de amor foi dada como causa da morte. Muitos ficaram chocados aquela história, menos eu. Eu já sabia que é impossível viver sem amor.

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