A entrevista e a nota de piano

Esse deveria ser mais um dia comum. Planos foram feitos, caminhos traçados, escolhas definidas. Quem somos quando estamos sozinhos? Ele saía do palco com a certeza de que havia feito um grande show. O seu último álbum tinha estourado nas paradas do Brasil e diziam que começava a fazer um burburinho pela América Latina.

Tudo deveria estar em festa. Ele deveria estar em festa. A reunião que tivera mais cedo com os seus agentes e com a gravadora havia fechado mais uma quantidade gigante de shows, dois festivais na Europa e um no Marrocos. Seria o começo da expansão de sua carreira, que seria levada para um outro patamar.

Enquanto todos gritavam seu nome, ele lembrou da sensação que sentiu quando isso aconteceu pela primeira vez, quando escolheram sua música para tocar na novela e isso a tornou um hit. Ele tinha dois álbuns lançados até então e nenhum deles havia emplacado com tanta firmeza nas paradas musicais. Haviam vendido o suficiente para manter o interesse da gravadora, mas seus shows frequentemente serviam como ato de abertura de outros artista ou eram realizados em casas de shows minúsculas para uma plateia pequena.

A novela havia mudado tudo. Ele e seu agente aprenderam a lidar com o que o público esperava dele e o álbum mudou de direção, sendo menos artístico e mais comercial. Agora, em seu quarto álbum, a gravadora queria aproveitar uma suposta abertura nas barreiras da América Latina para transcender seu material para outros povos. Seria uma coisa realmente boa, mas por que ele não estava se sentindo feliz?

Sua atual turnê tinha 23 músicas, sendo duas do seu álbum de estreia, sete do seu segundo álbum, quatro do terceiro e dez do seu atual material de trabalho (duas faixas ficaram de fora por não se encaixarem na proposta do show).

– O que a felicidade significa para você? – perguntara uma entrevistadora durante sua participação em um programa musical há dois dias.

– Eu acho que felicidade é saber que estou fazendo o meu trabalho, tocando a vida de pessoas e trabalhando com o que gosto. Quando estou no palco, eu me sinto em casa. É isso que quero fazer o restante da minha vida, tenho certeza disso. – ele respondeu, sem pensar realmente no que dissera. Sabia que sua resposta precisava seguir aquela direção.

Após falar um pouco sobre a proposta do álbum, ele cantou a faixa-título do seu material – Procurando pela felicidade, que apesar do nome, tinha uma letra muito mais romântica do que existencial. Ela falava sobre encontrar a felicidade em um amor e se dedicar para manter aquilo que ele passara tanto tempo buscando.

Quando chegou em casa, porém, pensou finalmente sobre o que aquela pergunta e sua resposta significavam. Ele queria realmente acreditar no que havia dito à repórter, mas não conseguia sentir a paixão pela música há muito tempo. O sucesso veio com uma pressão para manter o impacto no público e no mercado e nem sempre isso lhe deixava bem. Tivera uma crise de pânico há apenas duas semanas, saindo de uma reunião com a gravadora que lhe avisara que o atual single não tinha conseguido atingir o top 20 nos streams. A solução encontrada fora um remix com outro artista pop de quem ele não gostava. Era preciso somar esforços.

Ele queria se dedicar aos shows e terminar a promoção do álbum. Quando propusera um vídeo para todas as faixas do álbum, fora vetado pela gravadora. E por que então agora insistiam para que continuasse a gravar vídeos para o seu material? Para ele, aquele sentimento artístico tinha findado. Ele nem sabia se gostava tanto assim do álbum que criara ou se apenas gravara alguma coisa que seria sucesso nas paradas. Como poderia obter essa resposta?

Talvez, no fim das contas, não importava se ele estava ou não feliz. O que importava era que as pessoas pensassem que ele estava e se sentissem felizes com o material que ele estava produzindo. Seria um consolo, então, que ao menos alguém estivesse feliz com aquilo que ele estava fazendo?

Chegando em casa, ele pensou pela primeira vez que não queria estar vivo. Nunca tinha lhe passado esse tipo de pensamento, mas os mortos não podem decepcionar e estão sempre felizes. Ou não estariam? O que realmente acontece após a morte? Alguém teria essa resposta? E se só existisse o nada quando a vida terminasse? Queria ele ser parte de um grande nada onde não se destacasse de um grão de areia? Seria lá que estariam grandes nomes da música como Prince, Whitney Houston, Michael Jackson, Cazuza…?

Ao invés disso, ele sentou-se em frente ao seu piano, com uma melodia incomodando a sua cabeça. Tocou a primeira nota. Depois a segunda. Anotou aquela continuação em um caderno que mantinha ao lado do piano. Uma melodia quase que inteiramente pronta surgiu em sua mente e a letra tinha nascido junto. Parecia que não havia sido ele mesmo quem tinha composto, mas alguém através de seus dedos, de suas mãos, de sua voz.

Assim nascia a primeira canção de seu álbum. Isso lhe deixava feliz? Ele não sabia. Mas ele havia acabado de gritar, em alto e bom som, a ajuda de que precisava. Era apenas preciso que os outros fossem capazes de ouvir.

 

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