A reunião

Era uma conversa incomum. Caminhei rapidamente pelo quarto, em busca de qualquer sinal de que eu não estava enlouquecendo. Aparentemente não. Era um confronto inevitável. Talvez todos passem por esse tipo de confronto em algum momento de sua vida, sem qualquer sinal de que a cena é verdadeira ou apenas uma ilusão. Isso não é possível.

Enquanto observava os meus convidados, me perguntava qual seria o assunto que nos trouxera até ali. O que realmente tínhamos em comum? Seria essa uma pergunta válida ou estaria eu fadado a buscar por algo que não possui resposta? Ilusões de alguém completamente louco. Essa era a verdade.

– Boa noite! – eu disse, vendo que a atenção de todos se voltava para mim. – Não entendo bem o que estamos fazendo aqui, mas aceitei recebê-los, se esse é o desejo da maioria.

– Evitar uma catástrofe e permitir que eu exista. – afirmou um homem de terno, cabelo aparado e aparência extremamente séria com sua barba cheia. – Cuidar de sua saúde mental é importante para que eu exista. – ele seria eu no futuro.

– É verdade, você está enlouquecendo. – disse o meu outro convidado, ligeiramente mais novo do que o outro.

– E de quem você acha que é a culpa? – rebati, vendo a cara de espanto do meu eu do passado.

– Eu fiz o que achava certo. Desculpe se as consequências não foram das melhores. – seu tom era mais calmo agora.

– Peço-lhe então que não venha me criticar. Sou eu quem está lidando com as consequências de suas ações.

– Vocês são patéticos. – disse o outro convidado, a pessoa que eu não gostaria de ser.

– Cale-se. Nem sei por que você foi convidado. Nós quatro fazemos de tudo para garantir que você não exista. – a pessoa que eu desejava ser entrou em minha defesa.

Buscando evitar que aquela algazarra se prolongasse, levantei-me e pedi ordem no recinto. Todos se calaram. Cada um teria o seu momento de se pronunciar. Resolvi que os depoimentos seriam dados por ordem de manifestação de opinião. Começamos então com o meu eu do passado.

Ele se levantou, um tanto tímido demais. Gaguejou um pouco antes de começar a falar.

– Primeiramente, peço desculpas pelos erros cometidos. Eu queria aprender a amar sem causar problemas para vocês. Mas acho que o erro mesmo foi não ter sabido lidar com o amor, ou melhor, com a abstinência dele. O coração partido e as memórias conflitantes são coisas que precisamos aprender a lidar. Não dá para achar que vamos ser felizes sempre. O problema é que não escolhemos quem amamos e encontrei o amor de minha vida em alguém que não merecia a responsabilidade que lhe atribui. Os problemas de autoestima e a insegurança imensa também me levaram a optar pelo o que era mais fácil, ao invés de por aquilo que eu realmente queria. Espero que haja esperança para lidarmos com essas feridas que criei.

Enquanto ele encerrava o seu discurso e se dirigia até o seu lugar, eu tomava os holofotes, me preparando para falar e defender-me das acusações de que estava nos levando ao fim.

– Sinto como se estivesse afogando. – eu disse, finalmente desabafando o peso em meu coração. – Estou afogando em desilusões e tudo tomou proporções tão grande. Peço desculpa se estou causando qualquer tipo de transtorno ou sofrimento a vocês, mas não estou sabendo lidar com a dor do coração partido e com o sofrimento que me parece esmagador e sem sentido. O que posso eu fazer? Cada dia que passa eu perco um pouco o gosto pela vida, pelos meus amigos, pela minha família. Sinto que um abismo se abre aos meus pés. Não foi apenas o amor não correspondido e o coração pisoteado, sangro também por decisões tomadas que alimentaram o poço de desilusões que venho criando desde pequeno. Será que posso realmente algo fazer para aliviar esse vazio que toma conta do meu peito? Digam-me! – implorei.

O meu eu do futuro tomou os holofotes da conversa e explicou o problema que ninguém mais conseguia ver.

– A questão é pedir ajuda e esforçar-se quando conseguir essa ajuda. Existe uma grande quantidade de possibilidades em que eu não existo, porque desistimos de continuar no meio do caminho. Minha preocupação é que parece que essa linha temporal está me levando a uma inexistência e tanta coisa bonita vai acontecer em sua vida se eu existir. Vamos encontrar um amor – não tão intenso, mas calmo e certo para a gente. Seremos felizes e iremos nos casar. Teremos um cãozinho lindo, vamos decidir romper com as convenções da família e seguir a profissão que realmente desejamos. Haverá coisas ruins e tristes também, mas muitas conquistas e muitas coisas boas. Contudo, precisamos pedir ajudar se quisermos chegar até esse ponto. É preciso superar essa turbulência para chegar ao nosso porto de destino.

– Se me permitem. – interrompeu a pessoa que eu não gostaria de ser. – Acho que essa conversa nem deveria estar acontecendo. Se ele quiser morrer, que morra. É bom que evita muitos sofrimentos. Olha quanto desapontamento ele vai causar a família se seguir os seus passos. E suportar todo esse sofrimento do presente, que já é um peso enorme e esmagador. E para quê? Para agradar um bando de egoístas que só querem que você aparente estar bem, para acalmar suas consciências medíocres de que fizeram alguma diferença em nossa vida. Eu digo: danem-se todos!

– Você pode até dizer isso, meu amigo. Mas por quê ele ouviria a voz de alguém que ele deseja se afastar ao máximo. – era a pessoa que eu gostaria de ser quem falava. – Talvez você nunca se torne eu, é verdade. Eu sou a mistura de mudanças possíveis, de quem você já é e não consegue ver e de característica que no momento não pertencem a você. Sou uma idealização e devo permanecer assim. O que não quer dizer que você não deva batalhar para ser eu, porque vai ser essa batalha que lhe fará vencer muitos desafios e se tornar o nosso eu do futuro. Essa pessoa que vos fala não desistiria nas dificuldades, mas buscaria curar as feridas. O nosso eu do futuro está correto, no momento tudo parece pesado demais e precisamos de ajuda para carregar essa bagagem. Não é que não sejamos fortes o suficiente, mas está tudo bem pedir por ajuda em determinados momentos. Não somos obrigados a passar por tudo sozinhos. Nossos amigos e familiares, as pessoas que nos amam estão aí para nos ajudar, assim como você se coloca a disposição para ajudar a quem ama.

Olhei para cada um separadamente. Todos tinham bons argumentos, mas eu não podia seguir todos aqueles conselhos. O que eu faria?

– O que decidimos, então? O que faço agora?

– Você é o presente. Apenas você pode decidir. – disse a pessoa que eu gostaria de ser.

– Mas eu sempre serei o presente. Quer dizer que eu sempre terei que decidir? – falei, com uma tristeza me invadindo.

– Sim. – respondeu o meu eu do passado.

– Conto com você. Lembre-se: você não tem que passar por isso sozinho. – apoiou-me o meu eu do futuro.

– Boa sorte, você vai precisar! – bocejou a pessoa que eu não gostaria de ser.

– Lembre-se de mim. – foi o conselho final da pessoa que eu gostaria de ser.

A reunião estava finalizada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s