Os rivais

Dois rivais viviam em uma mesma cidade. Embora não fosse um lugar tão pequeno assim, eventualmente eles se encontravam em um bar, uma praia, cinema ou mesmo em um restaurante onde o outro entrou apenas por engano. Certa vez se encontraram em um consultório médico e ambos desistiram de prosseguir sua consulta, pois não pisariam no mesmo lugar onde o outro pisava.

O motivo da rivalidade épica entre os dois? Uma história de amor que mais parece roteiro de cinema. Os dois eram melhores amigos na adolescência e se apaixonaram pela mesma garota. Ela namorou primeiro um, depois o outro. Traiu o segundo com o primeiro, para quem prometeu voltar, antes de ter uma recaída com o segundo. No dia em que vencia o ultimato que os dois deram a ela, descobriram que a moça já tinha seguido em frente e estava com um outro namorado. Pouco depois, ela engravidou, casou-se e mudou para outra cidade. Sem ter mais o amor por quem batalhar e nem poder rivalizar com o vencedor, voltaram seu coração partido, mágoa e ódio um para o outro.

Essa é a triste e ridícula história dessa rivalidade.

A cidade já temia o conflito iminente entre os dois. Isso porque a intensidade dos embates entre eles foi crescendo ao longo dos anos. Inicialmente, era apenas uma birra de adolescente que, dificilmente, terminava em um conflito físico. Quando finalmente aconteceu, ambos foram suspensos da escola e temeram que isso manchasse o seu currículo. Os embates, então, retrocederam apara apenas palavras sujas e de baixo calão.

Passaram para faculdades de outras cidades e se mudaram. A população da cidade respirou aliviada, achando que o tempo fora seria suficiente para fazer os dois esquecerem aquela rixa sem qualquer sentido. Estavam enganados.

Quando os dois rivais regressaram à cidade, se encontraram já no desembarque. Parecia que o destino queria testar se todos poderiam finalmente enterrar aquela rixa ou se a história se encaminhava para um novo violento capítulo. A segunda opção se mostrou mais verdadeira. Sem o medo de prejudicar uma carreira acadêmica, os dois foram às vias de fato ali mesmo, na própria rodoviária. A população assistia assustada, enquanto eles se agrediam, arrancando sangue um do outro. Muitos machucados depois, foram separados pela polícia e encaminhados para a delegacia, onde prestaram queixa e foram liberados. Desde então, os amigos de ambos tentavam mantê-los afastados um do outro, levando-os para lugares diferentes sempre que sabiam que o outro estaria presente no destino inicialmente planejado.

Falharam miseravelmente.

Os dois pareciam atraídos como por uma espécie de ímã magnético de hostilidade. Um sempre conseguia encontrar onde o outro estava. Eventualmente, os confrontos se tornavam mais agressivos, mas ainda sem qualquer risco de mortalidade. Os matadores de aluguel da cidade foram reunidos e proibidos de aceitar a causa de um ou do outro. A rixa entre eles se tornara parte de um patrimônio ridiculamente cultural e memorial da cidade. Estavam de volta às arenas de gladiadores, à velha rixa de famílias rivais com consequências épicas. Era a sonhada história fictícia acontecendo realisticamente naquela cidade. Ficariam sempre conhecido como os rivais.

Ninguém sabe como aquilo aconteceu. Espalharam pela cidade que os dois estavam tendo um caso. Irracionalmente, um acusou o outro, sem notarem que ambos se tornaram motivo de falatório. A população confusa dividia-se entre o preconceito e o saudosismo pelo suposto fim de uma rixa história.

Mas a guerra se encaminhava para o seu capítulo final. Não com a assinatura de um tratado, mas com uma ação brutal. Não haveria rendição, mas aniquilação de um inimigo mortal. Será mesmo que o fim trágico é como todos esperam? O que seria mais trágico do que um matar ao outro? Eu lhes respondo: a percepção do fim.

Um duelo foi marcado. Um deles levou as normas de conduta ao pé da letra, o outro resolveu trapacear. Não se sabe quem assumiu qual dos papéis. Com a ajuda de um amigo, o trapaceiro conseguiu superar o seu inimigo e dar um fim à vida daquele a quem mais odiava. O que havia sobrado para ele, porém? Foi a pergunta que se fez por dias. Apenas um longo vazio.

Já pensaram em como o vazio pode pesar muito? O trapaceiro logo descobriu. Sem um propósito de vida, uma vez que havia matado ele, sucumbiu ao vazio que tomara conta de si e tirou a própria vida, dizem que após beber uma garrafa inteira de gim.

A verdade é que um não poderia viver sem o outro. Ambos eram parte de uma mesma coisa. Um mesmo propósito. Uma mesma vida.

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