A longa jornada

Uma dor.

Talvez a dor mais forte que tinha sentido até então.

Ela correu para avisar ao marido, pois estava completamente despreparada para aquele tipo de dor. Havia sido uma longa jornada. Desde quando soubera o motivo de seus sintomas e todas as idas ao médico nas semanas e meses seguintes. A mudança em seu corpo, os desejos infundados, os enjoos, a barriga que crescia.

Houve dias em que se achava a mulher mais linda do mundo. Em outros se sentia inchada, feia e gorda. Uns dias vinha a felicidade de sentir aquele amor crescer. Outros era apenas medo e desespero. Nunca fora mãe antes. Seria ela uma boa mãe ou cometeria os mesmos erros que via as suas amigas cometendo? Conseguiria ser próxima da menina que estava sendo gerada em seu ventre? Isso apenas o tempo poderia dizer.

Uma contração forte a fez encostar na parede e respirar fundo. Tentou chamar seu marido, mas apenas uma voz fraca saiu de sua voz. Respirou fundo. Gritou.

– ANDRÉ!

Um grito único, porém forte. Não era socorro, mas urgência.

Ele veio ao seu chamado. Parecia andar calmamente até conseguir ouvir finalmente a sua respiração desregulada. Correu. Ela lhe comunicou o que se passava com os olhos e ele já estava pronto, pegando a mala que os dois haviam deixado pronta para o caso de emergência.

A viagem foi sentida de maneira diferente entre os dois. Ela estava concentrada nas dores que chegavam, em conseguir manter o seu bebê dentro da barriga o tempo suficiente para chegar ao hospital. Ele rezava baixinho, pedindo que tudo corresse bem com sua esposa e a menininha deles.

Foi então que ela percebeu que estava sangrando. Ficou nervosa. Não estava preparada para que aquele momento fosse um caos como estava sendo. Onde estava com a cabeça quando deixara a gravidez chegar onde chegou? Onde estava com a cabeça quando se permitiu ficar grávida? Um medo grande se apoderou dela, de maneira que ela jamais pensou. Um medo, um pânico.

Foi desfalecendo antes de chegar ao hospital. Ele entrou em pânico quando percebeu, mas seguiu firme no volante, porque sabia que o destino das duas mulheres de sua vida dependia dele agora. Ela fora a guerreira por mais de oito meses e ele não precisara fazer praticamente nada. Agora era o seu momento de fazer algo – nem que fosse um mínimo comparado aos desafios que ela enfrentara nessa jornada.

Não havia sido uma jornada fácil. A gravidez fora descoberta com pouco mais de um mês. Foram 36 dias até que ela aceitasse a ideia de ser mãe. Era estranho, mas ela não conseguia amar o seu filho. Ele dizia que era questão de se acostumar, mas ela nunca acreditou que amor era uma consequência de costume. Chorava muito à noite com esses pensamentos.

Para ele, a ideia de ser pai foi fácil de ser entendida. Ela se incomodava com as mudanças de humor, com os enjoos e com o seu organismo se adaptando para receber um outro ser. Sentia-se estranha. Mesmo quando aceitou completamente a gravidez, ainda não sentia que amava seu filho.

Tudo mudou na décima sétima semana de gestação.

Ela acabara de preparar um café e estava indo a padaria comprar pão quando sentiu a coisa que mudou tudo. Foi muito estranho. Ela sentiu seu filho mexer na barriga pela primeira vez, e alguma coisa mudou dentro dela depois disso. Ela sentiu um amor por aquele ser. Ela o amava e sabia disso.

Estava fraca e sabia que não conseguiria. Sentia dentro dela que estava chegando o seu momento, mas antes entregaria sua filha ao pai. Ela cresceria para ser uma boa mulher, uma excelente filha e, se desejasse, uma maravilhosa mãe.

O parto foi difícil, ela perdeu muito sangue. Foram horas de trabalho, muita dificuldade, até que enfim ouviu-se o choro do bebê. A menina já chegava fazendo-se ouvir. O pai chorava junto, a mãe desfalecera. Agora precisava travar uma outra batalha.

Ele dividia a preocupação com a filha e a esposa. Ela queria viver, mas parecia que seu tempo estava finalizando.

Um dia, ele levou sua menina para conhecer a mãe. Ao som daquele choro, ela acordou. Cansada, fraca, mas viva. Viva para amar sua filha.

Fora uma longa viagem, uma jornada incrivelmente exaustiva, mas uma nova aventura estava para começar. Anos mais tarde, quando sua menina lhe disse um “eu te amo” pela primeira vez, ela soube com total certeza que todas as dificuldades superadas naquela jornada haviam valido a pena.

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