O sequestro do sol – Parte I

O sequestro

A noite fora fria em Salvador. Era uma realidade estranha para os soteropolitanos, ainda mais se tratando de final de verão. Apesar disso, foi uma comemoração quase que geral. Casacos saíram dos guarda-roupas, cobertores foram usados para dormir e houve quem agradecesse a economia de energia com ventilador e ar condicionado àquela noite.

Quem dormiu durante a noite ficou muito surpreso ao despertar. Os que estavam acordados nada entendiam. O pânico foi geral e logo todos os noticiários falavam sobre o assunto. O sol não nascera. Ninguém tinha uma resposta para o acontecimento. Enquanto o pânico tomava conta das ruas, redes de televisão tentavam falar com especialistas para identificar o problema e governos buscavam os maiores especialistas na área para buscar soluções e explicações sobre o acontecido.

Não se tratava de um simples eclipse solar. Era uma situação completamente diferente. O sol deveria ter nascido e a cada hora, uma nova cidade, um novo país percebia que isso também não aconteceria em seu território. Cada vez mais pessoas passavam a lidar com essa realidade desagradável e assustadora. E agora? O que fazer?

Em Salvador, o comércio não abriu àquele dia. Enquanto um jornal local falava sobre o pânico causado e sobre as aulas suspensas nas escolas municipais e estaduais, o nosso protagonista acordava com o toque do seu despertador.

Formado em Direito, mas trabalhando na loja do pai, Leandro estava puro sono. Seu turno começaria apenas ao meio dia, mas ele precisava levantar e fazer o café da manhã para sua mãe doente. Estranhou tudo estar escuro e acreditou que talvez tivesse colocado o celular para despertar no horário errado. Não fora. Será que havia bagunçado o horário do celular?

Já no corredor, viu que a porta do quarto dos pais estava fechada. Isso aumentou a sua certeza de que a hora do seu celular estava errada. Praguejou baixinho, pensando onde veria o horário correto para consertar em seu celular. Passou na cozinha rapidamente para beber um copo de água gelada e ouviu vozes no corredor. O que será que estava acontecendo? Por que havia tanta gente acordada àquele horário? Será que havia acontecido algum roubo no prédio?

– É o apocalipse! – gritou alguém. Ele demorou um pouco para reconhecer a voz de Dona Lionete, sua vizinha de porta.

Será que a mulher tinha surtado de vez? Morava sozinha há tanto tempo que devia ter sucumbido ao silêncio de sua casa. Os boatos que rondavam o prédio era de que ela havia abandonado o marido e os filhos quando jovem e fugido com um amante, que morreu pouco depois vítima de tuberculose. Depois disso, ela jamais casara ou se envolvera com ninguém. Não se sabia sequer se tinha tentado contatar os filhos deixados para trás.

Ele já estava pensando em voltar para o quarto quando ouviu a voz de Ícaro, seu melhor amigo. Ele parecia estar descendo as escadas.

– Acabei de assistir ao noticiário e ninguém sabe dizer o que está acontecendo. Eu vi que está um pânico nas ruas. Meu chefe acabou de ligar, confirmando que o expediente de hoje está suspenso. – sua voz se aproximava da porta de Leandro.

– Minha chefe foi internada, pois a pressão dela caiu completamente hoje pela manhã. Ouvi dizer que está havendo uma onda de assaltos. – Débora, outra vizinha da idade dos garotos, era quem falava agora.

A curiosidade tomou conta completamente de Leandro. Resolveu abrir a porta mesmo com apenas a roupa de dormir e descobrir o que estava acontecendo. Ele não sabia que horas seriam, mas não devia ser mais do que 4 horas da manhã. Aquele barulho e conversaria uma hora daquelas era completamente suspeita.

Ele abriu a porta e uma penca de olhares recaiu sobre ele. Todas as demais portas de apartamentos do seu andar estavam abertas. Verônica, uma amiga de sua mãe, estava de pijama e com uma touca de cabelo, mas sequer parecia se importar com isso.

Como ele suspeitava, Ícaro estava próximo de sua porta e parecia estar se preparando para bater. O sobressalto demorou pouco tempo e logo ele estava perguntando se o amigo já tinha se dado conta do acontecido.

– Que horas são? – Leandro perguntou, ainda um pouco sonolento. – E que barulheira é essa?

– Você não soube? O sol simplesmente não nasceu hoje pela manhã. Já são mais de 8h30 e nem sinal dele. A NASA já emitiu um comunicado de que não há qualquer sinal aparente de mudança e que ainda estuda o que pode ter causado o atraso do sol. – explicou Ícaro.

Leandro ainda tentava entender o que estava acontecendo, quando Débora completou.

– Na televisão, o evento já está sendo chamado de “o sequestro do sol”.

CONTINUA…

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