Pensamentos sobre a vida

O que vocês fariam se soubessem que este é o último dia de suas vidas? Quem já se pegou perguntando a si mesmo essa mesma pergunta? Quem já achou que tinha uma resposta para ela? A verdade é que nunca saberemos quando será o nosso último dia. Não acordamos e simplesmente decidimos: vou morrer. Ao menos se você for um suicida, mas ainda assim há uma chance de tudo sair errado e você ser obrigado a enfrentar mais algum tempo de vida.

Não digo aqui que minha vida não foi boa, mas também não foi uma maravilha. Nesse último momento de suspiro eu busco lembrar de qual foi o ponto alto de minha vida. Minha formatura? O ingresso na carreira acadêmica? Minha grande paixão? O nascimento de minha filha? Ou seria este momento, os meus últimos instantes – uma reunião de pedaços de cada um desses momentos?

Àquele dia, eu acordei com a cabeça doendo, como se meu corpo tentasse me avisar de que seria o seu último dia nesse mundo. Corri até a cozinha e tomei uma aspirina, sentindo cada uma das pontadas latentes em minha cabeça. Uma. Duas. Três vezes. Dor. Quantas dores eu já não havia sofrido – física e emocionalmente! Será que contamos cada uma dessas coisas? Sempre me questionei se a vida era uma sucessão de momentos felizes entre uma dor e outra ou se seria uma sucessão de dores entre um momento feliz e outro. Quem teria essa reposta, afinal?

Olhei ao meu redor e tudo era um amontoado de lembranças. Eu me sentia sozinho, embora nunca fora uma pessoa de viver sozinha. Eu não iria me matar, mas ansiava para que a morte finalmente me encontrasse. Foram 102 dias corridos, sofridos. Perda.

O quanto dói uma perda? Perder um amigo, um familiar, um ser amado. Poderíamos medir a saudade? Quem nunca desejou um medicamento que pudesse aplacar a dor do coração? Os sentimentos que nos fazem sofrer são simplesmente as piores dores do mundo, porque o único remédio que funciona com eles é o tempo. Mas como isso pode ser consolador se 60 segundos podem durar 60 anos quando eles assim o querem?

Não tomei café da manhã naquele dia. Estava atrasado para observar o barco das nove passar pelo rio, como eu sempre fizera com a minha doce Ana Júlia. Fazíamos isso desde o nosso segundo encontro, quando cheguei atrasado e ela me disse que, por enquanto, ainda valia a pena esperar por mim.

– Farei com que sempre valha a pena. – eu lhe disse, em tom de promessa.

– Se algum dia deixar de valer, tenha a certeza de que não me encontrarás mais aqui. – ela me respondeu, com um sorriso verdadeiro.

Fazia todo o sentido que assim o fosse. Não devemos insistir em alguém que não nos faz bem. O amor não machuca e eu aprendi aquilo da pior forma – cicatrizes marcadas na alma, numa sucessão de autoflagelação chamada busca por amor. Quem nunca insistiu em algo que não parecesse certo?

Enquanto o barco das nove passava, lembrei de como comemos um bolo de chocolate naquele mesmo lugar, em nosso quarto encontro. No sexto, finalmente a pedi em namoro. Ela disse que era incomum que alguém ainda fizesse um pedido oficial, mas eu respondi que queria ter certeza de que entendia tudo o que estava acontecendo.

– Não estou sem clara o suficiente? – sua expressão demonstrava verdadeira preocupação.

– Meu amor, quando queremos, conseguimos nos enganar, criando um cenário imaginário em nossas cabeças, que acredita ver o que não há e só escuta o que quer. – respondi, olhando as marcas imaginárias de cada coração partido.

– Eu te amo! Não há expressão mais adequada para explicar o meu sentimento por você.

E com aquela expressão, selamos o primeiro de nossos compromissos. Nos casaríamos apenas três anos e meio depois, quando ela já estivesse grávida. Uma onda de felicidade passou por nossos corações quando aquela notícia finalmente foi descoberta. Após uma longa discussão, eu sonhei que nomearíamos a nossa filha de Marina e assim decidimos o nome de nossa pequena.

Enquanto eu corria até o correio para deixar uma carta, lembrei de como corri para chegar a tempo de entrar na escola onde faria minha prova de vestibular. E foi graças àquela corrida que entrei em tempo, fiz minha prova e ingressei na universidade. Foram os segundos mais lentos da minha vida. Cada segundo parecia durar uma eternidade, enquanto eu ouvia as pessoas gritando palavras de incentivo e me dizendo que eu conseguiria. Eu consegui. Queria que todos que torceram por mim naquele dia soubessem disso.

Respirei fundo, pois a dor não me permitia qualquer outra coisa. Eu sabia que ela agora já não era tão grande, mas ainda assim me debatia, tentando impedir a morte iminente. Eu não sabia que iria morrer quando levantei da cama àquele dia. Ainda assim, chorei em frente ao túmulo de Ana Júlia, logo após o almoço. Fazia agora dois meses desde que ela havia me deixado.

Enquanto eu caminhava de volta para casa, meu pensamento era de que eu conseguiria fazer as coisas ficarem boas novamente. Havia sido uma grande perda, mas ainda tínhamos muito a ganhar. Teríamos outras chances. Marina havia nascido morta. Não tivera sequer a chance de respirar o nosso tóxico ar antes de regressar para onde quer que ela tenha vindo. Eu só podia rezar para que ela estivesse em um lugar melhor do que a nossa amada Terra.

Assim que cheguei em casa, percebi que havia alguma coisa errada. O arroz queimava no fogão e uma grande fumaça estava por toda a casa. Corri, em busca de minha amada. Ela estava rodeada de sangue, os pulsos cortados, jogada na porta do banheiro, como se tivesse lembrado de alguma coisa na cozinha antes de tirar a própria vida. Ela não aguentara o peso da morte precoce de nosso bebê.

Eu agora já não sentia mais nada, sabia que eles já davam minha vida por acabada. Apesar de toda a tristeza dos últimos dias, eu também havia sido muito feliz. Meus pais me amaram, exerci a profissão dos meus sonhos e me casara com a mulher de minha vida. Fui pai por alguns minutos, tive uma vida confortável e aceitara bem os dois maiores rombos sentimentais de minha vida.

Quando perdemos alguém que amamos, sempre nos perguntamos como vamos continuar. Mas aprendemos a continuar. Por eles – e por nós mesmos. A vida continua e a estrada é longa. Eu estava indo relativamente jovem, deixando de respirar por causa de uns trocados. Eu sofri, eu chorei. Mas também sorri e amei. A tristeza e a alegria caminham juntas, para lembrar-lhe que tudo é passageiro.

Ao fechar meus olhos pela última vez, eu revi a cena mais bonita de minha vida.

Era fim de tarde e Ana Júlia estava com lágrimas nos olhos. Ela tinha ficado de ir ver alguma coisa da festa de casamento, então achei que fosse o estresse por algo estar errado. Ela sempre teve a mania de chorar quando não conseguia resolver.

– Aninha…

– Estou grávida, amor. Você será papai! – ela me disse, interrompendo o meu chamado.

– O quê?

– Nós seremos pais!

E aquelas palavras se transformaram em um sorriso de amor em meus lábios. Esse foi o momento mais feliz de minha vida. E agora, com ela se findando, nenhum outro jamais poderia superá-lo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s