O menino, a esperança e a traição

Somos todos vítimas de nossas próprias expectativas. Costumo dizer que o que move nossas ações são as expectativas que colocamos em alguma coisa. Quando não acreditamos que alguma coisa vai adiante, nos desfazemos dela em nossas mentes. É simples. Quase um mecanismo de defesa. Precisamos ser movidos pela expectativa, porque ela é o que nos guia de um ponto clímax para outro em nossas vidas. A espera. A possibilidade de surpresa.  

Uma vez um menino foi ferido por um amigo de sua própria tribo. Era uma tribo que não tinha contato com o mundo externo, eles viviam em civilidade, mas sem os confortos que as novas tecnologias lhe forneciam. O menino não acreditou quando viu o punhal feri-lo bem em seu coração, deixando semimorto. Após o ataque, o “amigo” deixou-o abandonado e voltou a sua vida como se nada incomum tivesse acontecido.  

Um grupo de jovens, amigos do menino ferido, encontraram-no abandonado e semimorto. Ele mal exibia sinais de que poderia sobreviver ao golpe, mas resistiu ainda assim. Era necessário resistir. Ele precisava ter essa força de vontade, caso contrário a traição iria vencê-lo. Seria finalmente a vitória dos vilões sobre os heróis. Somos todos heróis de nossas próprias vidas.  

Levado para a ala de cuidados médicos de sua tribo, ele passou dias, semanas até em recuperação. Eventualmente, apesar de ainda não estar completamente recuperado, ele recebeu alta da ala médica. Começou a seguir a sua rotina. Voltou ao trabalho. Passou a viver novamente.  

Internamente, ele passou por muitos estágios: ódio, raiva, culpa, decepção e, por fim, ressentimento. Cada estádio levou o tempo que foi preciso para ajudá-lo a sarar. O problema de feridas como essa é que os remédios tradicionais não funcionam. É impossível você determinar quanto tempo até voltar a abrir-se novamente para o mundo, retomar a confiança nas pessoas, desistir de colocar muros em qualquer relação que você desenvolve.  

O menino também nunca foi de se permitir confiar muito nas pessoas. Esse foi um problema grave em sua vida. E tornou-se um problema maior após a traição que havia recebido. 

Preocupado com a situação que se alastrava, um de seus amigos lhe apresentou a esperança. Os dois inicialmente se estranharam. Não houve uma afeição à primeira vista. Foram necessárias algumas tentativas até que finalmente um ganhou a confiança do outro. Ou assim pareceu.

Os dois saíram algumas vezes, fizeram atividades juntos, compartilharam momentos, lembranças e segredos. A esperança acabou subindo em seu conceito, pulando os muros que ele havia construído de maneira muito rápida. Ela foi um mal necessário, porque ele agora sabia novamente que não estava ferido permanentemente, ainda era capaz de sentir. Oh, que felicidade! Suspeitava que talvez tivesse ficado para sempre maculado com a traição que sofrerá, mas a esperança lhe mostrava que não. A situação era completamente oposta. 

Um dia, antes de dormir, ao exaltar seus pensamentos para o Criador, agradeceu a presença da esperança em sua vida. Talvez aquela amizade eventualmente se findasse por motivos que fossem alheio ou estrangeiro aos seus desejos, mas ao menos gerariam boas lembranças. Talvez fosse o remédio do qual ele precisava.  

Isso gerou uma pequena expectativa. As expectativas movem o mundo, como disse anteriormente. Qualquer pequena expectativa é capaz de nos levar a determinadas ações – querendo a gente ou não. É algo que não podemos controlar. Esse ponto é muito importante para explicar a virada na história, o momento clímax que acabamos de atingir. 

A esperança também tinha as suas próprias expectativas. E o menino já não era mais capaz de suprir as expectativas dela. Era uma troca desigual, porque ele ainda tinha muito o que receber dela, mas não era mais capaz de lhe oferecer em troca o que ela precisava. Os sentimentos não são uma troca, uma barganha, mas as ações sim.  

Certo dia, a esperança encontrou um outro amigo. Os dois passaram a compartilhar os seus próprios momentos e ela passou a perceber como isso era o que ela precisava naquele momento. Olhou com carinho para o seu antigo amigo e percebeu que ele não seria mais capaz de lhe ofertar aquilo que ela precisava para continuar brilhando. E ela não podia deixar o seu brilho apagar, porque eventualmente seria necessária a alguém que, como aquele menino, precisara dela para se reerguer. 

O menino aceitou bem aquele rompimento. Nenhuma relação dura realmente para sempre. Muitas amizades morrem no caminho, sufocadas por objetivos e desejos opostos. Ele já estava acostumado com aquela crueldade do mundo.  

Pouco depois, indo ao parque com os seus outros amigos, o menino viu a esperança com o seu mais novo melhor amigo. Os dois pareciam tão leves e divertidos, tão mais necessários um para o outro que ele se sentiu insuficiente. Ele não gostou de ver os dois juntos, preferia que não tivesse visto-os. Sentiu-se traído novamente, mas dessa vez de outra maneira, sem tanta dor.  

Ele não sabia, mas a esperança o fizera mais forte. Ajudara a fortificar os muros ao redor do seu coração. Depois dela, vieram outros – com mais decepções e traições – porque assim são os seres humanos, assim são as esperanças e assim são as expectativas.  

Mas cada uma dessas alfinetadas fizera do menino mais forte. Eventualmente, seu coração estava protegido por uma barreira fortificada e apenas os verdadeiros merecedores chegariam até ele. Seria uma batalha, mas assim ele conseguiria diferenciar os que verdadeiramente queriam cativá-lo e os que estavam apenas de passagem em sua vida.   

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