O menino e a escuridão

Era uma vez um menino que criava uma escuridão em seu guarda-roupas. Ele não sabia explicar porque alimentava aquele ser, mas tinha criado uma pequena afeição em relação a ela. Eram já como velhos e grandes amigos. Ele não tinha coragem de se distanciar dela ou de abandoná-la após todo aquele tempo juntos. Seria apego ou simplesmente algum tipo de consciência de pertencimento?

Ele sabia que o horário que a escuridão mais gostava de se alimentar era à noite, então dedicava um tempo – talvez até grandioso – para realizar essa função. Ela ficava sempre muito satisfeita com o que recebia de alimento e já pedia por mais. Às vezes, ele cedia e lhe alimentava com mais do que ela precisava, mas outras conseguia bater o pé e delimitar a quantidade de alimentos que ele lhe daria.

Os amigos do garoto evitavam ir visitá-lo em casa. Acontece que ninguém se sentia muito bem no mesmo ambiente que a escuridão. Todos sempre sugeriam que ele se livrasse dela, abandonasse-a em alguma instituição adequada ou mesmo a jogasse fora. O menino, contudo, não conseguia ter esse desapego para com ela. Os dois tinham muita história, haviam passado por muitas experiências juntos. Seria justo simplesmente fingir que ela não existia?

Com o tempo, o menino aprendeu a deixar de convidar os amigos para visitá-lo. Ele não podia se livrar da escuridão, mas também não queria submeter os amigos a um ambiente em que se sentissem desconfortáveis. Ele queria o bem de seus amigos e precisava ser compreensivo e entender a relutância deles em estarem naquele ambiente.

Não é que ele fosse imune aos efeitos da escuridão em seu organismo e em seu equilíbrio mental, mas estava acostumado àqueles efeitos. Era uma convivência diária e, em algum momento, você finalmente aprende a conviver com aquele tipo de situação. Talvez ele simplesmente não conseguisse mais imaginar viver de um modo diferente. Outra suposição era de que ele preferia manter aquela escuridão ali, de modo que já lhe era confortável, do que se submeter a um novo cenário em que tudo lhe seria novo.

Vocês já pensaram em como o novo é sempre um lugar muito aterrorizante? Você não sabe o que vai acontecer, o que pode lhe machucar e como se defender dessas situações. Você não sabe se as coisas que sairão dessas novidades são boas ou ruins. O menino temia o novo mais do que qualquer coisa. Além disso, tinha responsabilidade para com aquela escuridão que criara e vira crescer.

Com o tempo, porém, o menino começara a ficar insensível aos sentimentos que os outros tinham para com ele. Passou a suspeitar de todos e o que antes era um entendimento sobre o que era confortável para os seus amigos passou a ser motivo de desconfiança. Será que seus amigos não queriam visitá-lo porque se sentiam desconfortáveis ou isso era apenas uma desculpa para não revelarem que não suportavam a sua companhia?

Aquela desconfiança começou a criar um isolamento ao menino. Ele foi se afastando aos poucos de seus amigos. A mudança foi feita tão sutilmente que nem mesmo os amigos perceberam o que estava acontecendo. Começou com algumas mensagens ignoradas e convites para diversão recusados. Ele passou a se sentir mais confortável na companhia da escuridão do que de seus próprios amigos.

Não houve brigas. Ele apenas não se sentia mais a vontade de participar do antigo grupo ao qual integrava. A escuridão não era apenas algo que ele criara e alimentara, mas também uma amiga muito querida e chegada. Ele a queria ao seu lado, de maneira que pudesse cuidar dela sempre e que um sempre tivesse a companhia do outro. Nunca estariam sozinhos desse modo.

Acontece que a escuridão se alimentava de alegrias e sonhos. Parecia um tanto controverso, mas ela ficava cada vez mais forte, enquanto o menino enfraquecia. Sozinho em seu quarto, viu os últimos brilhos de sua alma sumirem. Ele deixou assim de viver, consumido pela fome diária da escuridão.

Não estava morto.

Mas também não estava vivo.

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