A doença

Há toda uma pressão para sorrir. Alegria. Essa é a palavra de ordem. Nas redes sociais, todo mundo está sempre feliz, compartilhando os melhores momentos de suas vidas e realizando os seus maiores sonhos. Verdade ou não? Nós de fora nunca saberemos.

Àquela noite, um menino tinha esses mesmos questionamentos. Olhando os perfis de seus amigos em diversas redes, todos pareciam no auge de suas felicidades, caminhando diretamente para a realização de seus sonhos. Emprego dos sonhos; família dos sonhos; viagem dos sonhos. Para ele, apenas um desejo, quase uma inveja que se apossava de seu interior e o fazia querer explodir.

– Eu poderia explodir de verdade. Explodir só com esses sentimentos que eu retenho. – disse em voz alta, sabendo que seus pais não estariam em casa.

Sua vida tinha desmoronado com um piscar de olhos. Perdera o emprego que o mantinha, juntamente com a negativa para adentrar na universidade dos sonhos. A garota com quem estava saindo e parecia que iria emplacar em algo voltara para o ex. Os pais não lhe davam atenção suficiente. Ele não se sentia amado.

Pensou em muitas formas de se machucar. Pensou que poderia se machucar emocionalmente também, mas aquilo já havia acontecido e não fora por vontade própria. Como você consegue se livrar de um sentimento como aquele? Fingindo.

Ele pegou o seu celular e tirou uma selfie sorrindo, juntamente com um livro que tinha comprado algumas horas antes. Postou em suas redes e escreveu alguma mensagem sobre como gostava de ler e se encontrava em seu lugar preferido do mundo. Segundos depois, as primeiras curtidas começaram a ser notificadas. Ele se tranquilizou – tinha conseguido enganar a todos com a sua suposta felicidade.

Mas as coisas começaram a piorar nos dias seguintes. Ele começou a apresentar sintomas de febre e dores pelo corpo. Os dias foram passando e o que parecia ser apenas um resfriado se transformou em uma doença mais séria. Os exames indicaram um quadro grave e ele precisou ser internado às pressas. Seus pais de repente passaram a se importar com ele e o estavam visitando todos os dias, mas, de alguma forma, ele não se importava mais com isso. Parecia que estava a caminho de sua libertação.

Os amigos também começaram a visitá-lo. Os mesmos amigos que sumiram repentinamente de sua vida, finalmente se lembravam de que ele existia. Todos chegavam em seu quarto com inúmeras palavras de consolo e de animação, dizendo que aquilo simplesmente o deixaria mais forte. Ele não tinha tanta certeza. Até mesmo sua melhor amiga da escola foi, mas ele lembrou-se que ela o ignorava por meses.

– Você vai ficar bem.

– Talvez eu fique mesmo. – respondeu ele.

– Tem que pensar positivo.

– E por que você se importa mesmo? – ele perguntou, deixando transparecer todo o seu rancor em sua voz.

– Porque eu gosto de você! Sei que estamos afastados…

– Ainda bem que você sabe. Moramos na mesma rua e você está sempre com os seus novos amigos da faculdade, saindo com eles, se preocupando com eles. Agora que estou à beira da morte, todos me amam, me dão atenção e querem fazer parte de minha vida. Uma ova! Quando eu precisei bem quieto, ninguém estava aqui para segurar minha mão. Você acha que eu realmente me importo mais com o que cada um de vocês que estão vindo me visitar dizem? A vida é mais do que o momento em que estamos confrontando a morte. São os minutos que deixamos passar, são os momentos que perdemos e aqueles que ganhamos. Quando eu podia construir algum desses momentos felizes, as pessoas que poderiam me ajudar a encontrá-los, simplesmente tinham outros interesses. Estou bem cansado.

– Amigo…

– Não somos amigos! – sentenciou ele, sentindo-se pela primeira vez aliviado. Tinha despejado tudo que enchia o seu peito.

Após aquela explosão, sua antiga amiga não voltara a lhe visitar. Os outros colegas do colégio também não e ele tinha a sensação de que sua explosão não ficara apenas naquele ambiente privado; que alguém a levara adiante. Não se importava.

Semanas depois, seu quadro se estabilizou e ele começou a apresentar melhoras. O seu corpo respondia ao tratamento. Ele melhorava fisicamente a cada dia. Após um intenso tratamento, recebeu alta e voltou para casa. Foi necessário mais um tempo até que finalmente estivesse completamente curado de sua doença. A sentença do médico foi comemorada por todos, menos por ele. Nunca antes desejara tanto estar a caminho da morte.  

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s