A maldição da princesa

Era uma vez um reino muito distante. Nesse lugar, as moças cresciam para atrair os olhares dos rapazes e encontrar um casamento digno. Os rapazes eram educados para chamar a atenção das moças, que tinham o direito de retribuir ou não o flerte.

Certa feita, um jovem príncipe e uma bruxa se apaixonaram. Os dois se tornaram muito próximos, iniciaram uma amizade e descobriram o amor juntos. No mundo das bruxas, o amor era a última palavra e a definição de liberdade. Elas podiam se apaixonar e vivenciar esse amor, desde que o sentimento fosse recíproco. Não existiam poção do amor, pois não é um sentimento que se pode comprar.

Os dois estavam cada vez mais grudados. Fugiam no meio da madrugada para verem o nascer do sol juntos e se correspondiam quase que diariamente. A aproximação entre os dois não passaram despercebidos aos olhos dos pais do rapaz. Ele tinha um compromisso que era maior do que o seu coração: um compromisso com o seu povo. Há muitos anos, havia sido assinado um tratado de paz, em que o príncipe era designado a casar-se com uma singela princesa do reino rival. Assim, os dois reinos seriam unidos finalmente.

Quando lembrado do acordo ao qual estava preso, o príncipe ficou muito triste. Porém, seu coração havia sido ensinado a se ofuscar, pois o bem de seu povo deveria ser a prioridade número 01 de sua vida. Ele aceitou seguir em frente com o pacto e foi-se encontrar com sua amada. Lá, antes mesmo das juras de amor que trocavam rotineiramente, ele lhe deu a notícia. Não poderiam continuar a se ver, pois ele deveria seguir um compromisso muito maior do que ele, do que seus desejos e do que sua felicidade pessoal. Era seu dever como futuro monarca.

Apesar de dizer que tinha compreendido a situação, quanto mais tempo passava, mais a bruxa sentia-se abandonada, frustrada. Tentou criar uma poção do amor que fosse forte o suficiente para que o príncipe ficasse cego aos seus compromissos. Nada passou-lhe pela cabeça. O que faria, então? Sem resposta para os seus anseios, seu coração transformou o amor sentido em ódio. Se ele queria livrar-se dela por um povo que mal conhecia, então deveria sofrer as consequências.

Ela havia lido há pouco tempo uma história de vingança semelhante à sua. Mas não queria matar outras pessoas ou deixa-las dormindo para sempre. Não. O povo não era o culpado de sua separação, mas uma maldita tradição da monarquia. Queria ter o sangue frio para a vingança, mas não podia fazer algo que machucasse fisicamente ninguém.

A ideia, meus amigos, ela é traiçoeira. Ela vai se moldando aos seus limites, lhe convencendo aos poucos de que você pode transgredir alguma linha invisível de moral que você havia criado para si. Ao encontrar um antigo livro de feitiços soube que o destino queria que ela agisse daquela forma. A ideia se transformou e se moldou no decorrer dos meses.

Após o casamento do príncipe e do nascimento de sua primeira filha, Sofia, ela decidiu fazer uma visita de cortesia aos monarcas. Já realizara o encantamento, mas precisava pronunciar as últimas palavras em frente de alguém que tivesse partido o seu coração. Foi recebida com ressalva, mas o príncipe gostaria de vê-la uma última vez, achou de deveria a sua amada aquela cortesia. Os dois trocaram olhares, que foram desconhecidos da atual esposa do príncipe. Uma história se passou naquele olhar trocado, desmoronada pela realidade.

– Assim como a mim, ao nosso príncipe e a muitas pessoas, o amor não é uma dádiva, mas uma maldição. E assim sendo, para que os deveres da família real continuem a se cumprir, qualquer relacionamento por amor de seus sangues nascidos ou ainda por existir estará fadado ao fracasso, de uma forma ou de outra.

As palavras da bruxa foram recebidas como piadas por uns, com receio por outros e com ódio de uma terceira parcela. Ela foi presa, interrogada e morta nas semanas que se seguiram. De coração partido e muito magoado, o príncipe decidiu dedicar-se ao seu casamento e à criação de sua filha.

Demorou 16 anos para que a história fosse trazida à tona novamente. Todos resolveram esconder o assunto da jovem princesa. Agora, o homem não era mais príncipe, e sim um rei. A jovem Sofia se apaixonou por um jovem da corte. Seu pai havia lhe dito mais cedo àquele ano que ela se casaria apenas por amor, pois ele sabia como era devastador deixar alguém que se amava para cumprir com um acordo. Ela ficara contente, pois era muito romântica.

O primeiro amor não foi bem-sucedido. Ele precisara se mudar para um outro reino com seus pais. A separação devastou o coração da jovem Sofia, mas ela se recuperou aos poucos. Com 20 anos, recebeu uma carta que fora lhe encaminhada há duas décadas. Era da bruxa e suas palavras contavam à princesa sobre a maldição e como ela estava fadada a casar-se apenas por arranjos e nunca por sentimento. Ela correu aos pais para confirmar a história e os dois decidiram que era prudente contar-lhe logo toda a história.

Após uma longa conversa, lhe garantiram que o amor era assim mesmo e que a bruxa não tinha conseguido finalizar o seu feitiço. Porém, as palavras da carta encheram o coração da pobre Sofia de medo e desconfiança. Pouco depois, ela se apaixonou novamente. Os dois chegaram a namorar por algum tempo, mas ele a abandonara para fugir com uma dama da corte.

Sofia, contudo, ainda tinha esperanças. Tentou mais uma, outra, e outras tantas vezes. Já idosa, sem herdeiros de sangue para passar a coroa, mandou chamar-lhe um sábio. Queria conversar, entender o porquê da infelicidade de uma vida inteira. Ele a estudou e mediu bem suas palavras.

– O amor não é como nos vendem nos contos de fadas. Eles dão certo, mas a vida continua. As diferenças trazem problemas, situações que precisam ser enfrentadas juntas. O que se passou com a senhora, minha cara Sofia, foi que temeu enfrentar os problemas, pois a explicação mais fácil era de que era amaldiçoada pelo amor. Não digo que a bruxa não tenha feito o seu feitiço, mas ninguém pode determinar as nossas ações.

– Mas e aqueles homens que foram crápulas comigo? Ou aqueles que precisei me separar?

– E aqueles que foram gentis e românticos, mas seu coração já endurecido temeu entregar-se por completo a eles e fugiu a qualquer sinal de envolvimento mais fundo. O amor é uma batalha, das mais difíceis. É necessário que dois batalhem juntos, entreguem-se juntos e sejam vulneráveis. Um relacionamento de dois anos deu certo por dois anos. Deixou experiências e aprendizados. Há sempre pessoas que vão nos machucar, mas não podemos deixar que isso nos impeça de nos entregarmos àqueles que vão nos fazer felizes.

E essa foi a última lição que Sofia aprendeu.

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