O garoto e o arco-íris

Um desesperado garoto uma vez resolveu fugir de casa. As coisas estavam realmente ruins e ele não sabia o que fazer. Doía estar em casa, não sentia-se confortável em falar com seus “amigos” porque achava que ninguém realmente se importava com os seus problemas. Qualquer pessoa que alguma vez já se sentiu desesperado com a sua vida vai entender esses sentimentos.

Para essa sua aventura, ele resolveu reunir as coisas mais importantes que ele tinha: um urso de pelúcia que tinha ganhado aos 6 anos, duas mudas de roupas, um todinho comprado às pressas na noite anterior e o seu diário. Iria narrar sua aventura dia após dia, contando os mínimos detalhes de sua rotina, como vencera desafios e como chegara a lugares onde nunca imaginaram que ele chegaria.

Uma de suas maiores preocupações era saber para onde ele iria primeiro. A resposta veio enquanto lia um conto de fadas: iria descobrir o que havia no final do arco-íris. Mas como se chegava a um lugar como aquele? Se não tivesse essa resposta, sua aventura jamais poderia começar.

Foram semanas de pesquisa, horas sem dormir, sorrisos falsos e resmungar um “estou bem” quando qualquer pessoa parecia minimamente interessado nele. Por fim, após adentrar um portal chamado “Acredite”, a resposta lhe chegou. Foi sem querer, nem pensara realmente em visitar o site, mas clicou por engano. Uma das mensagens explicava como chegar ao arco-íris. Era tão obviamente simples que chegava a ser estranho que as pessoas não fizessem isso o tempo inteiro.

Essa jornada só poderia ser empreendida por quem estava realmente em desespero. Se o sentimento não fosse o suficiente forte, então você jamais cumpriria um dos requisitos a chegar a esse lugar. O segundo passo era procurar uma estrela cadente que passasse às três da manhã em ponto e fizesse um pedido: “quero empreender a mais alta aventura”. A cada quatrocentas pessoas que fizesse isso, uma poderia ir ao arco-íris.

– Quais as chances de ser justamente em minha vez? – ele se perguntou. Aquele não era um segredo que estava amplamente divulgado. Os requisitos eram muitos.

Enquanto pensava sobre isso, achou que o site poderia estar mentindo. Contudo, ele não tinha nenhuma outra pista, então precisava seguir a única que havia encontrado e torcer para não estar sendo feito de tolo. Ou seria ele um tolo só por imaginar que conseguiria desvendar o mistério sobre o que estava no fim do arco-íris. Seria realmente um pote de ouro? Ele duvidava. Achava que era a posta para algo ainda mais grandioso, tão grandioso que não cabia em sua imaginação.

– Deve ser uma aventura e tanta! – ele disse a si mesmo, preparando-se para ir dormir.

Próximo do horário necessário, ele abriu a janela de seu quarto e olhou para o seu, torcendo, quase rezando para que uma estrela cadente passasse. E isso aconteceu. Ele fez o pedido, imaginou exatamente o que precisava, mas nada lhe aconteceu. A decepção era tanta que ele chorou por dois dias seguidos, sem nem conseguir parar para respirar.

Após fazer a mesma tentativa por oito semanas, ele voltou ao site, desesperado para gritar e ofender a pessoa que tinha escrito aquelas falsas palavras. Quando abriu o artigo novamente, viu que tinha esquecido um dos requisitos básicos. Era necessário também que estivesse chovendo. Caso contrário, o arco-íris continuaria oculto.

Na semana seguinte, a oportunidade se apresentou a ele de maneira salutar. Ele acordou no horário necessário e esperou chegar às três da manhã. Quando olhou para o céu, uma estrela cadente passou e ele pediu: “quero empreender a mais alta aventura”. A chuva já caía desde o final da tarde, então deveria acontecer a qualquer momento. Ele fechou os olhos e esperou. Alguns minutos, abriu os olhos novamente, mas ainda se encontrava em seu quarto.

Indignado, ele chutou a cadeira de estudos, esmurrou a cama e deitou-se, revoltado com o erro que cometera. Sabia que talvez ele não tivesse sido a quadragésima pessoa a tentar ou simplesmente não fosse digno. Mas estava tão revoltado que esses pensamentos fugiram de sua mente.

Dormiu.

Quando acordou, sentiu um vento estranho em seu rosto e um sol forte incomodando o seu despertar. Assustou-se. Não se encontrava mais em seu quarto, mas em um mundo totalmente diferente. Os seus pés estavam firmes sobre uma superfície que era meio esponjosa, o ar parecia mais rarefeito e soprava gelado, apesar do forte sol que se sustentava no céu. Ele conseguira. Estavam, afinal, no arco-íris.

Pulou de excitação, mas desequilibrou-se e temeu que pudesse cair dali. Se não fosse hoje, jamais poderia descobrir o que estava escondido no fim do arco-íris. Precisava começar logo a sua caminhada, pois acreditava que seria uma longa estrada até chegar a seu destino. Iniciou um passo de cada vez, sentindo o peso da liberdade em seu coração e o desejo de nunca mais voltar.

Aos poucos, foi percebendo que havia gente morando ali. Fadinhas coloridas voavam pelo arco-íris, espalhando uma porção de pozinhos mágicos, que ele não sabia para que servia. Começou a pular de alegria, pensando que talvez pudesse ficar ali para sempre. Gnomos caminhavam pelo chão. Todos os moradores do arco-íris pareciam ser bem pequenos, muito menores mesmo do que ele. Seria estranho ser a maior pessoa dali, mas já havia experimentado isso quando fora o maior aluno da sala em sua terceira série.

O lugar era bonito, mas ele começou a se sentir meio tonto, sem saber qual era exatamente a causa daquilo. Ele viu transporte de fadinhas passarem flutuando por ele, mas muito pequenos para que ele pudesse pegar essa carona. Seria apenas ele e suas perninhas. Se ao menos tivesse conseguido levar o seu urso de companhia e o seu todinho…

De repente, como se uma mudança drástica estivesse resolvendo os seus problemas, ele chegou a uma descida enorme. Jogou-se por ela, como uma criança animada se joga em um enorme tobogã. Caiu, caiu e caiu mais um pouco. Caiu ainda mais. Por fim, chegou ao fim do arco-íris.

Inicialmente, ele pensou não haver nada. Estava enganado. Não podia acreditar que era aquilo que se encontrava no fim do arco-íris. Sorriu feliz. Sentia-se tão leve após aquela descoberta. Não pertencia mais àquele lugar e sentiu uma repentina vontade de voltar para casa. Sabia que não podia contar aquela aventura para ninguém, apenas para o seu ursinho.

Voltou à escola e sentiu-se amado. Em casa, percebeu que apesar dos problemas os seus pais lhe amavam. A vida parecia estar com outra cor e ele não sabia porquê estava tão feliz. O ursinho, porém, compreendera tudo. O garoto havia encontrado, afinal, um pote de esperança no fim do arco-íris.   

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