O coração e a vila

Era uma vez uma vila. Ninguém sabia ao certo onde ela ficava ou se tinha um nome. Havia algumas ruas, mas nada muito grande, com uma escola, um mercado, uma farmácia e até um médico. Apenas o suficiente para que a população continuasse viva e suprisse as suas necessidades – como geralmente acontece com essas pequenas vilas.

A verdade é que essa vila nada tinha de comum. Olhando as suas casas, a estrutura da rua e até a rotina das pessoas não se podia afirmar que havia algo de diferente nela. Mas era preciso conhecê-la realmente para saber sobre a existência do coração. Diferente das demais vilas e cidades, ela possuía um coração. Não me refiro a um ritmo ou cadência, mas um coração de verdade. Bom, verdade seja dita, o estranho órgão não possuía um coração, mas ele o guardava como seu.

É preciso voltar ao tempo. Há muitos anos, um grupo de moradores encontrou o estranho órgão em uma região abandonada, que com o crescimento passou a fazer parte da vila. Preocupados com aquela estranha descoberta, resolveram esconder o coração para que os demais habitantes não fugissem apavorados. Um dos descobridores, sem conseguir conter-se, acabou vazando a história, mas a população reagiu muito diferente do esperado. Ao invés de tentarem livrar-se do órgão ou fugir dele, a população resolveu adotá-la como um símbolo de amor e união na vila.

Com o tempo, a população começou a suspeitar que o órgão era capaz de absorver a culpa, os medos e as tristezas da população. Além disso, os moradores tornaram-se mais unidos e amigáveis por conta do segredo que compartilhavam. Era um povo inteiro tentando escondê-lo dos forasteiros que ocasionalmente passavam pelo lugar temporariamente.

Contudo, assim como sempre acontece nas culturas, os efeitos do coração diante da vila foi se perdendo da consciência dos jovens, que acreditavam que tudo se tratava apenas de um mito, uma lenda do povo. Resolveram provar, através da transgressão, que as crenças não tinham fundamento e que os mais velhos estavam enganados sobre os efeitos benéficos do coração para àquele povo.

Esconderam-se em uma antiga casa e criaram lá um grupo de rebeldes. “Toda revolução começa com o fim de antigas crenças”, era esse o lema do grupo.  Intitulados de Revolucionários, eles começaram a alfinetar o coração – uma vez por dia. O órgão, inicialmente, soltava um pouco de sangue, mas recuperava-se dos ataques que sofria. Porém, enfraquecido, ele foi perdendo cada vez mais a sua capacidade de refazimento. Com ataques diários, não tinha mais condições de se restabelecer com a mesma rapidez que outrora.

Os ataques foram sucedidos por pequenos desentendimentos na própria vila. A situação preocupou a geração mais antiga. Surpresos, eles acabaram descobrindo que os mais jovens estavam machucando propositalmente o coração e passaram a defender o órgão que outrora fora encontrado e escondido em comum acordo pelo povo. Pela primeira vez desde àquela descoberta, a população da vila estava dividida.

– Até o fim dessas crenças! – gritava os Revolucionários.

– Proteção ao nosso coração! – argumentava os Defensores.

Sem chegarem a qualquer acordo, os combates se tornaram frequentes. Revolucionários e Defensores entraram em uma espécie de guerrilha. Quando os mais jovens eram bem-sucedidos, atacavam e enfraqueciam o coração. Quando os mais velhos saiam vitoriosos, então era o momento de curar o órgão dos ataques e alimentá-los com bons sentimentos.

Alguns chamavam aquela situação de equilíbrio, mas para outros havia algo de errado. Essa não era a vila de que eles lembravam e também não tinham a intenção de viver em uma terra de caos como aquela. Houve debandada, mas os representantes dos dois grupos prosseguiam em sua jornada; alternando momentos de sucesso e fracasso em suas causas.

Enquanto o coração resistia, ataques e defesas eram arquitetados. Algumas pessoas juram que ainda hoje é possível ouvir os barulhos dos confrontos entre os dois grupos. Quanto ao coração: talvez jamais esteja completamente protegido porque, assim como na vida, ele sempre seria alvo de dores e sofrimento, não importava o quanto fosse protegido. E talvez aquilo valesse à pena, desde que os momentos de proteção compensassem as dores dos ataques.

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