A estrelinha

O mundo era uma mistura de branco, cinza e preto. Todos os dias seguia-se a mesma rotina: acordar, alimentar-se, estudar, ajudar nas atividades de casa, dormir. Não era apenas ele, mas o ser humano em geral. Não havia tempo para sonhos e planos. Viver não era necessário, apenas sobreviver. Alimentar e descansar o corpo para trabalhar e estudar para poder alimentar e descansar o corpo. Um ciclo perfeito.

Àquela noite, ele vira um brilho estranho próximo a sua janela. Não conseguiu identificar do que se tratava. Desconhecia completamente qualquer tonalidade que não fosse o branco, o cinza ou o preto. Estava preso eternamente em seu Kansas.

No dia seguinte, a mesma rotina de sempre. Acordou. Alimentou-se. Escola. Conversa rápida com os amigos, pois tinha horário para chegar em casa e ajudar com as tarefas. Alimentou-se. Ajudou seus pais. Cansou-se, era, pois, o momento de dormir. Pela segunda noite, observou alguma coisa diferente próxima à sua janela, mas novamente não conseguiu identificar do que se tratava. O brilho ficou apenas alguns instantes e desapareceu. Deveria ter imaginado. Mas como, se ele não tinha criatividade?

Pelo terceiro dia seguido, quando se preparava para dormir – após cumprir todo o ritual diário – ele avistou o estranho brilho. Guardou o medo dentro da cabeça e aproximou-se daquilo que lhe intrigava. Era uma estrelinha que estava à sua janela, como a observá-lo. “Não tenho imaginação para algo assim”, pensou, ainda incerto se via algo real ou imaginário.

– Olá? – perguntou, desconfiado.

– Olá! Venho lhe observando esse tempo todo. – a estrelinha respondeu, risonha.

Ele não conseguiu evitar sorrir também, como se estivesse louco. Deveria estar louco, afinal.

– Por que? – questionou.

– Acho os hábitos de vocês, humanos, muito intrigantes. De onde venho nós criamos, imaginamos e nos divertimos. Vocês possuem hábitos e rotinas muito rígidas.

– E de onde você vem? – perguntou.

– De uma terra chamada Natal. – ela respondeu, como se fosse algo óbvio. – Gostaria de conhecê-la?

Ele queria ter recusado, seguido a sua rotina e ido dormir, mas sentia algo que não conseguia identificar – era sua curiosidade. O que haveria de tão diferente nessa terra chamada Natal, que tornava a sua rotina tão intrigante para aquela estrelinha? Aceitou o convite.

Ele jamais soube como chegara até lá. De repente, estava em um mundo colorido. Ele sequer sabia que podia existir uma variedade de cores, tão diferente da tríade branco-cinza-preto de sua terra. Ele olhou para os lados e viu luzes coloridas que piscavam, bolas brilhantes que enfeitavam as árvores (todas pinheiros) e guirlandas na porta das casas.

Soldadinhos marchavam, cantando alegremente: “It’s the most wonderful time of the year”. Ele olhava admirado para aquele novo mundo que descobrira. Enquanto ainda tentava entender que lugar seria aquele, ouviu pequenos anjos voando pela cidade, entoando alegremente “Do you hear what I hear?”.

– Bem-vindo ao Natal! – apresentou-lhe a estrelinha.

Ele sorriu alegremente, entendendo o porquê de a estrelinha ter achado tão intrigante o modo de vida que ele e seus pais viviam. Como viera parar ali? Que lugar era aquele?

– Isso parece um sonho. – ele comentou, pensando no assunto.

– Isso é viver. Aqui nós vivemos e por isso mesmo nós sobrevivemos, mas vocês focam em sobreviver e assim jamais vivem. – respondeu a estrelinha, muito sabiamente. Era uma estrelinha muito esperta.

Caixas de presente ficavam expostas na frente de cada uma das casas, mas ao invés de haver algum objeto dentro delas, uma luz muito tranquila saía de dentro dela. Ele não conseguia identificar do que se tratava, mas a sensação era muito boa. Eventualmente, ele acabaria descobrindo que o conteúdo era esperança.

Havia um grupo, próximo onde ele se encontrava, que estava organizando um amigo secreto. Mas eles não estavam com nada em mãos, o que deixava o garoto muito confuso. Virou-se para a estrelinha, que cantarolava “rocking around the christmas tree” baixinho e questionou:

– O que eles estão trocando de presente?

– Amizade. – respondeu a esperta estrelinha, ainda em seu tom que mesclava o riso e a confusão. Ele sentiu-se tocado com o que lhe fora dito e não sabia dizer porque se sentia tão alegre e emocionado.

A brilhante estrelinha se ofereceu para levá-lo a conhecer o lugar. Natal era um lugar mágico, cantante, brilhante, alegre e inesquecível. Ele conheceu um casal de idosos que observava as pessoas nas ruas, desejando-lhes “feliz natal” com um sorriso no rosto, uma criança cuja música favorita questionava: “como é que Papai Noel não se esquece de ninguém?” e uma mulher que usava um gorro na cabeça e cantarolava de maneira feliz que “all I want for christmas is you”.

Por fim, quando finalmente a noite chegara, todos se reuniram na praça central para um banquete. Havia das mais variadas comidas e bebidas e sobremesas. As pessoas conversavam e cantavam e se felicitavam. O garoto sentiu a esperança crescer em seu peito e se imaginou vivendo num lugar como aquele. Era a primeira vez que ele entendia que podia imaginar, sonhar, viver. Sobreviver, de repente, não parecia bom o suficiente.

Quando todos começavam a se preparar para dormir, ele precisou se despedir daquele mundo e regressar ao monocromático mundo dos humanos.

– Por que não posso ficar? – questionou.

– Porque nós somos um momento, seremos uma lembrança e eventualmente voltaremos para que você se lembre sempre de que há esperança e de que o mundo pode ser também colorido. – ela respondeu. – De agora em diante, você está permitido a viver para sobreviver e não mais sobreviver para viver.

– Quando voltarei a encontrá-los? – ele quis saber, sentindo as lágrimas descerem por seu rosto.

– Voltaremos sempre ao fim do ano, para renovar suas forças e energias e trazer um pouco de nossa esperança para você. – os dois tinham ficado muito amigos durante aquele dia que passaram juntos.

– E como vocês vão me encontrar? – era sua última pergunta.

– Cante as nossas músicas e assim saberemos onde estará. – E assim, sempre que se aproximava o período de regresso dos seus amigos natalinos, o garoto cantava as canções que havia aprendido e o Natal o encontrava e lhe trazia de presente um pouco de esperança.

Muitos anos depois, quando o corpo se desgastara e ele morreu, foi com uma grata surpresa que se viu recepcionado na terra do Natal.

Muitos anos depois, quando o corpo se desgastara e ele morreu, foi com uma grata surpresa que ele se viu recepcionado na terra do Natal.

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