(Re) encontro

Era véspera de Natal. O ano havia sido uma representação certinha do que é a vida: começos e pontos finais. Eu havia me formado, começado a trabalhar, me apaixonado, vivenciado esse amor e tido o meu coração partido. Enquanto todos estavam finalizando os pratos da ceia de Natal e eu me preparava já para ir tomar um banho, fui chamado a sala.

– O que foi? – respondi a contragosto, deixando claro que tinha pressa eu entrar no banheiro.

– Tem uma visita para você lá fora. – respondeu minha irmã.

Pensei que poderia ser algum amigo de infância, mas não havia sobrado muitos com quem eu ainda falasse aliem Vitória da Conquista. Há alguns anos eu havia me mudado para Salvador para fazer a faculdade psicologia e a única amiga de infância que ainda tinha ali viria mais tarde passar o Natal comigo. Seria alguma pegadinha de minha irmã?

Não era nenhuma armação, afinal.Henrique estava parado do lado de fora, vestindo uma camisa vermelha e uma calça jeans, com um presente em mãos e parecia apreensivo. Eu entendia o lado dele; a nossa última conversa não tinha sido realmente amistosa.

– Oi. – eu disse secamente.

– Oi, Guto. Não podia deixar de passar por esse período sem vir aqui falar contigo. Principalmente porque sei o quanto você gosta do Natal e o quanto você vai estar notando as mudanças em relação ao ano passado, com a ausência do seu pai e tal. – disfarcei a cara de surpresa com as observações dele, mas me perguntei se eu era assim tão previsível. Meus pais haviam se divorciado, meu irmão estava casado e passaria o primeiro Natal longe da família. Muitas mudanças para alguém que não gostava de mudanças, como eu. 

– Obrigado! – eu disse, dessa vez com um pouco mais de gentileza. Era Natal, afinal. Era um momento de abrandar o coração. No dia seguinte eu poderia voltar a sentir o meu rancor e continuar com o meu processo de cura das feridas do coração. – Realmente significa muito.

– Você está bem?

– Estou sim. E você? – decidi devolver a pergunta de última hora.

– Também estou. Era para eu ter vindo um pouco mais cedo, mas estava escondendo as uvas passas lá de casa. Não consigo entender como podem chamar aquilo de comida. – ele fez uma careta e eu quase ri.

– Uva passas donas do Natal. – devolvi o comentário.

Era engraçado como estávamos quase íntimos naquela conversa. Se eu não estivesse tão travado e na defensiva, poderíamos ter tido um momento de muita descontração e afinidades. Será que algum dia voltaríamos a ser amigos como antes? Era mais uma das mudanças que eu observava e me perguntei se o Henrique sentia a minha falta.

– Toma o seu presente! – ele me entregou o embrulho. Era um livro, eu podia sentir.

Eu agradeci, mas não tinha comprado nada para ele. Na verdade, eu não pretendia vê-lo pessoalmente tão cedo, principalmente depois do fiasco que havia sido a nossa última conversa.

– Posso te dar um abraço? – ele me perguntou e eu assenti.

Foram os segundos mais estranhos da minha vida. Eu ainda estava claramente apaixonado pelo Henrique. O toque dele, o cheiro e o “Feliz Natal” sussurrado em meu ouvido conseguiu desadormecer todas aquelas sensações que eu não sentia desde o nosso término.Nesse pouco tempo, eu me perguntei se algum dia nós nos reencontraríamos de novo, como amantes. Parecia impossível, mas eu não acreditava em impossibilidades.

Foi um abraço rápido, mas que pareceu o abraço mais demorado que eu já dei em alguém. Ainda hoje, se eu fechar os olhos, consigo sentir as mesmas sensações que naquele dia. Mas o tempo passou, o momento terminou e nos separamos um pouco constrangidos. Eu me desculpei novamente por não ter um presente para ele e dei-lhe um beijo demorado na testa.

– Apesar de tudo, eu preciso lhe dizer “obrigado”.

– Pelo que? – ele parecia extremamente surpreso.

– Por ter me feito sentir amado,pelos sorrisos, pelas cartas que me enviou… Por ter me ajudado a passar por momentos difíceis e de desestímulo. Por ter sido o meu porto seguro e as minhas boas lembranças. Não sei se você algum dia vai me ouvir repetir isso novamente:eu te amo! – eu disse, dessa vez olhando-o nos olhos.

– Mesmo que você não acredite, eu amo você também! Você é a criatura mais perturbada e doce com quem eu já me envolvi. Eu não mudaria nenhuma das boas memórias que temos juntos. Espero que algum dia possamos voltar a fazer parte um da vida do outro. – ele finalizou,devolvendo o meu olhar com firmeza.

– Quem sabe um dia, né? – eu sorri, meio triste.

– Eu só desejo que a vida te trate com gentileza e desejo que você conquiste tudo o que tem sonhado. Eu te desejo alegria e felicidade e, acima de tudo, eu te desejo muito amor. –ouvi-lo citar “I Will Always Love You” para mim foi muito significativo.

Antes mesmo que eu me desse contado que estava fazendo, aproximei meus lábios do rosto dele e lhe dei um beijo na testa. E assim nos despedimos.

Observei o carro do Henrique se afastar e entrei em casa, indo diretamente para o meu quarto. Lá, na privacidade de minha solidão, abri o embrulho e vi que era um exemplar do livro Desaparecidas, da série de Rizzoli & Isles, da autora Tess Gerritsen. Esse seria o próximo livro da série que eu estava planejando comprar. Havia já um tempo que eu buscava por esse livro, mas estava sempre em falta. Eu adorava não apenas a história da dupla, como também o estilo de escrita de Tess.

Havia algo ainda mais inesperado.Junto com o livro, estava uma carta escrita à mão pelo próprio Henrique. Eu não sabia se estava pronto para aquela leitura, mas me permiti finalizar aquela história.

Guto,

Sei que você não me deixaria falar sobre isso, então decidi escrever para que você leia quando se sentir pronto. Não quero que pense NUNCA que eu não te amei ou não quis você. Na verdade, sei que quando nos abraçarmos vou querer tudo de novo. É meio triste como nossa história se desenvolveu e como ela morreu tão rápido, que parece que ainda está acontecendo. Parece que está apenas interrompida. E talvez esteja interrompida mesmo, quem sabe?

Eu te amo! Essa é a primeira coisa que quero que entenda e acredite. Eo fato de eu também gostar do Daniel, não acaba em nada com esse sentimento que guardo com carinho por você. E se não tivesse terminado comigo, talvez ainda estivéssemos juntos e tenho certeza que teríamos dado certo sim. Não sei se é justo escrever isso para você, estando com o Daniel, mas acho que se alguém deveria saber, esse alguém é você.

Sinto muito pela forma em que terminamos e por em algum momento você não ter se sentido amado. Sinto muito por ter te magoado, quando prometi que apenas te levaria sorrisos. Sei que cometi os meus erros, mas sei também que o que tivemos foi verdadeiro e guardarei para sempre comigo esse sentimento – e essas lembranças.

Enfim, não quero me alongar. Não quero escrever milhões de frases e palavras porque está sendo doloroso e vai ser para você também, se não estiver enganado. Espero que os nossos momentos juntos tenham valido à pena, que você tenha se divertido e se sentido amado. Espero que possamos sair juntos para nos divertir em Salvador e que encontremos um caminho saudável para sermos amigos novamente. Vou esperar até você ficar pronto, porque só naquela nossa última conversa eu entendi o quanto te magoei. Desculpa por tudo, Gu. Seja feliz,porque não vou descansar ou me sentir feliz sabendo que você ainda busca pela sua felicidade.

Com amor,
Henrique.

Eu li aquelas palavras com muito amor, mas sem derramar mais nenhuma lágrima. A carta do Henrique parecia encerrar de vez aquela história. Era triste que nossa história tenha sido intermitente daquela forma, mas não podia negar que ela que me marcara de maneira muito singular. Se me perguntassem há alguns anos, eu jamais concordaria que era possível um relacionamento terminar ainda existindo amor.De outro lado, era bom saber que eu não tinha amado sozinho naquela relação.Aquele pensamento tinha me incomodado e me machucado ainda mais nas últimas semanas. Apesar disso, Henrique era um fanfarrão com as palavras, eu sabia disso, mas não via algum motivo para ele querer me enganar com aquilo. Não estávamos mais juntos e eu não tinha interesse que estivéssemos, não naquele momento.

E com esse pensamento, pensei que estava finalmente pronto para aproveitar o meu Natal, sem aquele peso no coração. Deixei o meu quarto e a carta guardada em meu guarda-roupa, mas levei comigo as palavras em meu coração.

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