A princesa prometida

Era uma vez uma princesa que vivia em um reino muito, muito distante. De cabelos longos e cacheados, ela era uma das mais belas damas conhecidas em todos os reinos. Sua beleza era motivo de comentários – de admiração e inveja – praticamente todos os dias. Uns diziam que ela puxara os genes de sua mãe que era conhecida por uma beleza incomum,enquanto outros afirmavam que o rei havia feito um pacto para que a menina fosse tão bela.

Por esse motivo, e por insistência do seu próprio pai que fazia dela uma espécie de mito no reino, a jovem princesa não tinha amigos. Nem mesmo as criadas mais jovens podiam conviver em um mesmo ambiente que ela. A aproximação com outras pessoas de sua idade era desencorajada, até mesmo com outras jovens da nobreza.

A verdade era que o rei não tinha uma boa relação com sua filha. A rainha tinha morrido de fraqueza após o parto da princesa, que durara quase dois dias para se concluir. Na época, o caso foi motivo de rodas de conversas por semanas – meses até. Com o passar dos anos, porém, a história foi sendo esquecida e a população voltou-se para o mistério da princesa, que só era vista de longe e pelos criados que ficavam alguns minutos em sua presença.

Foi com surpresa que a população acordou àquele dia. O assunto se tornou o comentário geral e todos estavam surpresos com a notícia. Claramente era um arranjo entre reinos, mas a princesa se casaria com o mais belo dos príncipes em apenas duas semanas. Ele não a conhecia e ela não fazia ideia de como ele era. Também não se revoltou ou sentiu-se triste com a ideia de um casamento arranjado. Era menosprezada pelo próprio pai e mal tinha contato com outros seres humanos em seu reino. Talvez pudesse desenvolver amizades após o seu casamento e, se tivesse sorte, apaixonar-se por seu marido.

A jovem princesa era romântica e doce – um pouco ressentida com seu pai também. Exclusa da companhia de outras pessoas, passava a maior parte do seu dia mergulhada no universo dos livros,sabendo que jamais viveria o seu conto de fadas. Uma semana antes de seu casamento, leu a história de uma jovem que fugia de casa para conhecer o mundo e nunca mais retornava ao seu reino. Os compromissos que lhe foram ensinados não lhe permitiam fazer uma loucura como aquela, mas talvez não houvesse mal em fugir por um dia.

Foi com essa ideia na cabeça que ela vestiu-se como uma plebeia e deixou o seu castelo. Correu pela propriedade, sentindo pela primeira vez o gosto da liberdade. Poderia passear um pouco pela região e retornar. Sem que soubessem quem ela era, trocou de roupa novamente e usou uma peruca que tinha desde as aulas de teatro para desaparecer pelas ruas. Por engano, uma comitiva com nobres do reino de seu noivo estava chegando naquele momento e ela foi confundida como um dos integrantes. Achou que não teria um disfarce mais convincente e aceitou o papel que lhe foi oferecido.

Adentrou uma estalagem e sentou-se para tomar um refresco. Decidiu-se por um vinho. Ele sentou em sua mesa sem qualquer pedido anterior e os dois trocaram um olhar rápido.

– Que fazes? O lugar está ocupado. – ela disse.

– Não está, não. – ele respondeu.

– Mas não o quero aqui. – ela rebateu.

– Então levante-se. A estalagem está cheia, foi o único lugar que sobrou.

Ele estava certo, mas a petulância dele não saiu de sua cabeça. Como ousava tratar uma dama assim? Ela pensou em levantar-se, mas achava que seria uma ousadia dar-lhe aquele tipo de satisfação.Apenas fez um gracejo e aproveitou o seu vinho. Ele pediu a mesma bebida.

Foram alguns minutos de tensão, quebrados apenas quando ela decidiu puxar assunto com o desconhecido. No dia seguinte,ela voltaria a ser a princesa de sempre e os dois jamais se veriam novamente.Por que não se permitir aquela graça? Descobriu que ele era casado e gostava de olhar a lua todas as noites. Ela o achou um fanfarrão e confessou que também era noiva, mas não gostava de seu pretendente.

– E por que vais casar? – ele quis saber, de maneira intrusiva.

– Esse é um assunto meu. – delimitou ela. Àquela tarde ela era uma fidalga, e não a jovem princesa.

O assunto rendeu e as taças de vinho se sucederam. Uma, duas, três… foram horas de conversa e a lua já reinava no céu. Os dois caminharam até as margens do lago, ainda conversando sobre futuro, sobre as incertezas, sobre os planos que a vida lhes mostrava.

Entre uma frase e outra houve um beijo, demorado, urgente e intenso. E depois outro. E depois outro. Ao final da noite, estavam apaixonados e pensaram em fugir juntos. Mas ela tinha o seu compromisso com o reino de seu prometido; e ele tinha um compromisso com sua esposa. O desespero da situação em que estavam os atingiu. Ele a tomou como sua; ela entregou-se a ele como nunca havia feito antes. Os dois se amaram.

Quando os primeiros raios de sol nasceram, ele precisou voltar a sua família, e ela precisou voltar ao seu posto.

Na semana seguinte, o grande dia do casamento chegou. A princesa conheceu o seu tão misterioso noivo que era de fato bonito, mas parecia muito pouco interessante. A cerimônia de união dos dois foi longa. Quando caminhava até o altar, ela o avistou. Ele estava elegante, distante de sua esposa e a encarava com total surpresa.

Os dois trocaram um olhar cúmplice e triste, e naqueles segundos toda a noite que partilharam passou em suas mentes. De alguma forma ela sentia como se fossem amantes de outras vidas,que tiveram o prazer de se reencontrar nessa existência. Ele sentia o mesmo.Mas o caminho não era tão longo e logo ela estava passando por ele e chegando ao altar. Seu noivo a recebeu.

Enquanto o padre fazia a sua preleção cerimonial, falando sobre amor e compromissos, ela deixou que sua mente divagasse. Poderiam ter fugidos juntos, mas a vida dele estava atrelado a outra.Ela também tinha os seus próprios compromissos e sabia que jamais teria coragem de abandoná-los e deixar a sua família com má fama entre os reinos. Aceitou o seu destino, porém com o coração aquecido por ter encontrado o amor antes do dever. Não havia lugar para o amor dos dois naquela vida, mas quem sabe numa próxima. Era o momento de encontrar a felicidade em outras coisas.

Após o fim da cerimônia, ela novamente lhe lançou um olhar compreensivo, enquanto se retirava da igreja ao lado de seu agora marido. O olhar dele lhe desejava toda a felicidade do mundo e o dela gratidão pela oportunidade de amar. Sabia que carregaria o sentimento pelo resto de sua vida, mas sabia também que não se perdoaria jamais se morresse sem saber o que era amar. E, por isso, ela estava grata.

FIM.

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