O Eco

Em uma certa pequena cidade havia uma fenda tão funda que era impossível saber qual a sua profundidade. Uma lenda dizia que se você fosse merecedor, poderia gritar uma pergunta para ela e receberia uma resposta. Por anos, os moradores daquele povoado lhe perguntavam  coisas, mas a fenda nunca havia respondido.

Certo dia, um adolescente que havia mudado recentemente para a cidade soube da lenda. Ele não costumava acreditar naquele tipo de superstição, mas achou que valia a pena ao menos testar se era realmente verdadeiro. Afinal, o máximo que poderia lhe acontecer era não receber nenhuma resposta. E era isso que ele esperava que ocorresse.

Naquele dia, tomado de uma decisão repentina, ele resolveu visitar essa fenda e lhe fazer uma pergunta.Quando estava a caminho do local onde o buraco se encontrava, foi informado que precisava retornar para casa com urgência, pois o seu pai precisava dele.Levemente chateado com o obstáculo, ele mudou o seu caminho e dirigiu-se para casa.

– Onde estava? – questionou o seu pai.

– Ia visitar a fenda e testar se a lenda era verdadeira. – respondeu com sinceridade.

– Não acho sensato. A lenda diz que quem recebe uma resposta da fenda, enlouquece logo em seguida.

– Eu não acho que essa lenda seja verdadeira.

– Não quero vê-lo naquele lugar. Jamais! – proibiu o seu pai.

Ele nunca havia desobedecido uma proibição de seu pai, mas o desejo em testar se aquela lenda era ou não verdadeira foi mais forte. No dia seguinte, disse ao pai que ficaria até mais tarde na escola fazendo um trabalho com amigos e saiu correndo para o lugar onde haviam lhe dito que estava localizada a fenda.

Fazia sol e não foi difícil chegar ao local. Não parecia haver nada de especial com aquela fenda. Era apenas mais uma superstição de moradores de uma cidade pequena. Por que então ele estava perdendo tempo com uma coisa daquelas? E pior: estava desobedecendo uma promessa que havia feito ao seu pai por uma besteira. Algo que seria sem importância e não teria qualquer significado. Resolveu seguir o que prometera ao seu pai e foi-se embora.

No dia seguinte, porém, percebeu que só teria paz de espírito se fosse descobrir se a antiga lenda era ou não verdadeira. Ele não acreditava que fosse receber qualquer resposta, mas alguma coisa lhe dizia que ao menos deveria ver a fenda de perto. Nunca tinha visto uma fenda de perto antes e essa era a sua melhor opção.

Ao final da aula, prometeu a si mesmo que passaria lá apenas rapidamente e, em seguida, iria embora. O dia estava um pouco nublado, mas ele não tinha medo. Queria apenas descobrir que não havia nada demais com aquele local e seguir sua vida tranquilamente.

Já no local, ficou surpreso com a profundidade da fenda. Era um lugar bonito, era verdade. Resolveu tirar algumas fotos, apenas para provar aos amigos que havia estado mesmo por ali. Já ia embora quando decidiu fazer uma pergunta para a fenda.

– Devo optar por sorvete de chocolate ou de baunilha? – perguntou.

Esperou por alguns segundos, sem qualquer dúvida em relação ao silêncio. Confirmado que nenhuma resposta viria,ele se virou às costas e já estava de saída quando uma voz saiu da fenda:

– O de baunilha. Apesar do sorvete de chocolate ser o seu favorito, especialmente hoje ele lhe fará mal. –respondeu a fenda.

Ele ficou admirado. Voltou a fenda e perguntou o porquê.

– Problema de armazenamento. Siga o meu conselho. Bom dia! – a fenda dizia novamente, dessa vez em tom conclusivo.

Ele tentou perguntar mais alguma coisa, porém não obteve resposta. Em casa, resolveu descobrir se a fenda tinha razão. Ao invés de seguir os conselhos que havia recebido, ele optou pelo sorvete de chocolate. Como resultado, passou alguns dias doente e soube, dois dias depois, que o fabricante havia entrado em contato pedindo que não consumissem aquele sorvete, pois havia tido um problema com o armazenamento.

Encantado com a situação, ele resolveu que voltaria a visitar a fenda tão logo estivesse curado. A lenda não apenas era verdadeira, como ele era merecedor daquela atenção que a fenda lhe destinara. Por algum motivo, ele fora o único que conseguira se conectar com seja lá qual criatura vivia em suas profundezas.

Tão logo sentiu-se melhor, retornou ao local. Fez uma pergunta, mas a fenda manteve-se quieta. Esperou por uma resposta, mas ela não veio. O silêncio o machucava e o deixava ansioso.Retornou ao lugar no dia seguinte e no posterior e no seu sucessor, mas a fenda recusava-se a lhe responder.

O jovem ficou obcecado. Ele não conseguia pensar em outra coisa senão no silêncio que a fenda lhe dispensava. Por que de repente aquele silêncio? O que ele fizera de errado dessa vez? Essas eram algumas das perguntas que passavam por sua cabeça.

Sua obsessão em receber uma resposta ficou cada vez maior. Passava as horas pensando em possíveis perguntas que poderia fazer à fenda. Talvez, ele precisasse fazer o questionamento correto para obter uma nova resposta. Afastou-se dos amigos, deixou de estudar e sua vida passou a ser destinada à fenda. Já não conseguia dormir direito ou comer ou reconhecer as pessoas que estavam ao seu redor.

Ele precisava de uma nova resposta da fenda, apenas mais uma e poderia se sentir tranquilo novamente. Era esse o único pensamento que vinha em sua cabeça. Contudo, a resposta nunca veio,porque a fenda responde apenas uma única vez para cada pessoa. Mas ele não desistia, sua vida agora girando em torno de encontrar aquela resposta. Ele precisava perguntar novamente. E com esse pensamento fixo, o jovem enlouqueceu.Porque quando se experimenta uma resposta, o silêncio não mais é uma opção.

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