A caixinha de segredos

Era uma vez uma menina de 5 anos que morava em uma vila muito afastada da grande cidade. A vila não tinha mais do que cem casas, mas a menina parecia viver mais em seu próprio mundo do que naquela sociedade onde estava inserida. A maioria das pessoas na vila sequer sabiam o nome dela, porque ela não era muito de conversar com os outros.


Certo dia, enquanto explorava uma ladeira, a uns 200 metros de sua casa, ela encontrou uma caverna. Lá, havia um clima mágico no ar e a menina não podia ignorar o seu instinto de exploradora. O resultado: ela adentrou o local sozinha, mesmo lembrando dos avisos de sua mãe de que deveria evitar lugares como aquele. A verdade é que ela se sentia muito mais velha do que realmente era e achava que poderia ir e voltar quando bem entendesse, pois tinha maturidade e inteligência suficientes.


A caverna era assustadora, mas a garotinha não estava nem um pouco amedrontada. Ela sentia a adrenalina em seu sangue, mesmo sem saber o que era adrenalina. O local era muito escuro e nem parecia que o sol estava à pino do lado de fora. Se ela conhecesse o sentimento de medo, certamente não teria ido para onde se encaminhava.

Após muito caminhar, encontrou uma pequena caixinha protegida por um vidro e uma escrita – que ela não conseguia entender, pois ainda não sabia ler. Muito sapeca, a menina quebrou o vidro e retirou a caixinha para si. Após explorar um pouco mais a caverna, ela decidiu retornar para casa.

A verdade é que a vida da pequena não era tão fácil como todos podiam pensar. Na escola, ela sempre era a única garotinha que ficava sem um grupo e era sempre vista brincando sozinha no pátio. Em casa, os pais não lhe tratavam mal, mas estavam sempre brigando e seu pai pouca atenção lhe dava. Sua mãe até tentava disfarçar a ausência do pai, que preferia beber na taverna, mas a pequena sentia bastante falta dessa figura paterna. A ausência de irmãos lhe fazia sentir-se ainda mais solitária.

Então, certo dia, quando não conseguiu refugiar-se em seu mundo de faz de contas, ela experimentou contar para a sua caixinha os seus problemas e como se sentia sozinha e como queria ter um amigo com quem conversar. Depois de falar com a caixinha, sentiu que o objeto havia ficado um pouquinho de nada mais pesado, enquanto ela se sentira melhor. E assim ela passou a fazer todos os dias nos anos seguintes.

Certo dia, quando já estava para entrar na adolescência, a menina foi ameaçada por um grupo da vila que estudava na mesma escola que ela. Aquilo a assustou e ela passou a ter medo de sair na rua, sempre preferindo ir pelas ruas secundárias, fazendo voltas enormes para chegar ao seu destino ou esperando até que o grupo se afastasse para poder sair de casa. Assim que chegou em casa, ela contou tudo novamente para a caixinha, que já não era mais tão leve.

Alguns meses depois, a garota flagrou o seu pai andando de mãos dadas com uma moça estranha e uma menina que era mais nova do que ela bem uns seis anos. Sem malícia, ela contou a cena que presenciara para sua mãe e questionou quem era a dama com quem seu pai estava.

– Ninguém com quem você precise se preocupar, minha filha. – tranquilizou-a sua mãe.

Mas ela estava mentindo e logo a jovem descobriu isso. Após o incidente, as brigas entre seus pais se tornaram mais intensas e ele abandonou o lar, indo morar com a moça com quem ela o havia flagrado.

Enquanto seu pai aparentava cada vez mais felicidade – ela sempre o encontrava na rua, mas ele nunca tinha tempo para falar com ela, sua mãe parecia cada vez mais triste. Quando a jovem completou os seus 17 anos, sua mãe adoeceu e não resistiu à tristeza e à fraqueza do corpo. A vila queria que ela fosse morar com seu pai, mas fez um acordo com ele de que os dois se veriam uma vez por mês apenas e, em troca, ela poderia morar sozinha em sua casa.

Sem sua mãe, a jovem estava cada vez mais solitária. Logo que sua mãezinha se foi, ela só tinha uma única forma de desabafar: conversar com sua caixinha, que estava cada vez mais pesada. Era sempre um bálsamo esses momentos de diálogo, porque ela sentia que diminuía um pouco o peso dentro dela e o guardava dentro de sua caixinha.

Certo dia, indo fazer a visita mensal ao seu pai, ela o ouviu falando que não tolerava a filha mais velha e que se sentiria muito melhor se ela nunca mais cumprisse a promessa e parasse de visitá-los. Foi como se o copo de água finalmente tivesse transbordado. Ela correu para casa e, passando em frente ao grupo que sempre caçoava dela, tropeçou em uma perna que havia sido colocada em seu caminho propositalmente. Ela sequer olhou para ver quem havia feito aquilo, apenas levantou-se novamente e saiu correndo.

Já em casa, pegou a sua caixinha, mas não conseguiu levantá-la mais de tão pesada que estava. Apenas abriu a sua tampa e começou a desabafar.

– Sinto que estou desaparecendo, caixinha. Ninguém me ama e nem sentiria falta de mim se eu sumisse. Acho que esse seria o meu desejo: sumir. Eu queria poder desaparecer e ir para um lugar onde encontraria amor, como fazia quando ia para o meu mundo particular quando era criança. Mas desde muito tempo que não consigo mais encontrá-lo.

Foram muitos os desabafos àquele dia. Quando sentiu o peso diminuir o seu coração, ela preparou-se para ir à cozinha beber um pouco de água. Nunca soube como a situação se desenrolou a seguir. Desequilibrou-se e caiu estatelada no chão, derrubando a caixinha em cima de si. Ela tentou virar a peça, sacudi-la para que caísse, mas parecia uma tarefa impossível. Não havia como se levantar, pois não era mais capaz de controlar o peso da caixinha que alimentara.

Presa naquela posição, ela fechou os olhos, sentindo que sua respiração ia rareando. Ao mesmo tempo, o peso da caixinha ia diminuindo. E antes mesmo de abrir os olhos novamente ela sabia que havia finalmente encontrado o lugar para onde ia sempre quando era criança.

A melhor parte foi ouvir a familiar e saudosa voz de sua mãezinha dizendo:
– Levante-se, minha filha. Vamos tomar café.

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