Sede de veneno

Caminhava pela praia com ele em minhas mãos. Havia recebido aquela surpresa há poucos dias, mas não sabia exatamente o que deveria fazer com ela. Muitas ideias se passavam pela minha cabeça, mas eu buscava focar em minhas vicissitudes.

Já estiveram à beira de um precipício? Só há duas saídas nessas circunstâncias: dar um passo a frente e finalizar tudo ou retroceder e encontrar um melhor caminho. Eu pensava aquilo enquanto me livrava de minhas sandálias e sentia a aspereza da areia da praia em meus pés. Oh, que sensação maravilhosa! Eu estava em companhia de uma garrafa de veneno. Não que eu quisesse experimentá-lo, mas não sabia o que fazer com aquilo.

Sentei-me na areia e deixei que o vento noturno tocasse o meu rosto, sem qualquer gentileza. Eu estava com frio, mas não havia uma única alma ali que pudesse me aquecer. Não. Mas havia a garrafa de veneno, que curiosamente parecia me encarar, mesmo sem ter olhos. Parecia também falar comigo, ainda que fosse apenas uma garrafa. Fechei os olhos e deixei que a dor do meu coração partido gritasse sozinha, ecoando por cada artéria, por cada célula de meu corpo.

Relembrei a cena da pousada, em que o amor ia embora, enquanto eu o observado, deitado em minha cama. Ia-se embora meu amor, minha felicidade e minha esperança. Já haviam me dito que poderia esperar que a madrugada uma hora iria embora, e o sol nasceria novamente. Acaso não é o que acontece todos os dias? O amor havia me deixado e agora eu me permitia gozar daqueles minutos de rebeldia, em que eu podia esperar que qualquer coisa acontecesse a qualquer momento – algo que me surpreendesse para bom ou para ruim.

É difícil estar sem amor, porque parece que falta uma parte da essência que nos reveste. Não há dor pior do que a de um coração partido, pois não existe remédio que cure essa angústia – com exceção do tempo, segundo alguns dizem. Ela vai corroendo, alimentando-se das lembranças boas e suprimindo os momentos amargos. Ela ataca sem dó e se camufla quando percebe que está sendo combatida, apenas para retornar no momento em que você menos vai aguardar.

E com aqueles pensamentos, eu abri a garrafa e vi o conteúdo dela balançar perigosamente lá dentro. Quantos goles seriam necessários para que o seu efeito fosse completo? Talvez apenas um gole não fizesse mal, afinal. Como eu poderia saber sem experimentar?

Não sei se movido pela irresponsabilidade ou pelo desamparo, eu deixei que uma gota do conteúdo tocasse os meus lábios. O sabor era doce e cativante, parecia um frescor no gosto amargo que eu sentia àquele momento. Minha alma estremeceu com aquele chacoalhar e me vi interessado mais do que nunca naquilo que antes me disseram se tratar de um veneno. Talvez só fizesse mal se provado em excesso ou a depender de quem o experimentasse. Aquela possibilidade alegrou-me, ao mesmo tempo em que me deixou agitado. Eu me via diante de uma roleta russa.

Como em um ato de rebeldia, levantei-me e caminhei até o mar, deixando que a água tocasse os meus pés e me fizesse sentir vivo novamente. Eu podia sentir novamente e aquilo me deixava viciado. Depois de não sentir nada além de tristeza, qualquer outra sensação parecia uma boia salva-vidas. O vento estremecia os meus cabelos, a água quente enganava a temperatura que caía enquanto os minutos iam passando.

Naquela mesma praia, o amor havia me mostrado as luzes que brilhavam na outra extremidade da cidade. Luzes que lhe eram familiares, mas que eu realmente não conseguia entender. Àquela noite, as luzes estavam apagadas. Pensei que eu estava pronto para ter um ou mais filhos, casar, certamente cuidar de um cachorro e largar o emprego que não me deixava feliz por uma profissão medíocre, mas que era o meu verdadeiro talento. Ou quem sabe encontrar um talento novo? Tantas opções que me foram privadas juntamente com os sintomas do coração partido.

Sufocado pela necessidade de sentir mais, eu bebi mais um gole do conteúdo da garrafa – que àquela altura já não me parecia veneno, mas um antídoto. Se morrer fosse assim, então eu estava pronto para deixar este mundo. Mas aquilo não parecia o fim, mas um novo começo. Recomeço.

A praia escura ocultava onde estavam minhas sandálias. Após um novo gole, eu tirei a camisa. O vento tocou a pele nua do meu peitoral, mas a sensação de frio também me era agradável. Meus braços arrepiados pediam que eu retrocedesse em minha loucura, mas eu estava mais do que disposto a me pendurar nas costas daquela esperança e deixar que ela me levasse embora. Nem em meus maiores sonhos eu acreditei que pudesse reconstruir meu coração e sentir novamente, mas as sensações se apoderavam de mim sem que eu pedisse por aquilo.

Pulei e corri pela água, sozinho em meio a escuridão. Onde eu estava? Quem eu era? Por que continuar naquele jogo perigoso? Eu não sabia responder. O conteúdo havia me embriagado e eu decidi deixar que ele me proporcionasse todas as sensações que fossem possíveis. Joguei-me novamente na areia, tateando no escuro até encontrar onde havia deixado minhas sandálias. Estava bem próximo de onde eu buscava.

Uma lágrima isolada caiu pelo meu rosto e dei-me conta de que estava excitado. Eu estava molhado, com frio, embriagado e excitado. Eu era carne e sentimento – uma massa andante e perdida em meus próprios pensamentos. Estaria eu mesmo naquele lugar ou tudo aquilo acontecia apenas dentro de minha cabeça. Como saber a resposta daquela pergunta curiosa? Eu não sabia.

Os minutos logo viraram horas e o conteúdo da garrafa diminuía. A verdade é que uma vez provado do veneno, parecia impossível parar, esquecer e voltar ao estado anterior. Eu não parecia mais ser capaz de dizer não aos meus desejos e abandonar aquela garrafa, sem provar de todo o seu conteúdo.

Mas o conteúdo da garrafa não era infinito. Assim como o amor, ele também me deixara. O sol parecia querer finalmente nascer, mas eu me sentia cada vez menos capaz de esperá-lo. Levantei-me com dificuldade para deixar a garrafa próximo a um posto de coleta, que ficava na calçada da praia. Em seguida, voltei novamente para a areia. Caminhei um pouco e caí, enquanto o sol começava a dar sinais de nascer.

Meus olhos estavam cansados e eu não conseguia mais mantê-los abertos. Tocava uma música ao fundo, mas pouco eu conseguia identificar. Esforcei-me. Elvis entoava que “somethings are meant to be”, mas eu pouco conseguia entender de sua mensagem. Meus olhos finalmente se fecharam e eu cai em uma escuridão sem fim, onde nem mesmo as lágrimas poderiam me alcançar. Abandonado pelo amor e pelo conteúdo mágico, eu era apenas uma caixa vazia, incapaz de sentir novamente.

– Estou aqui com você. – o amor me dizia, mas eu não podia escutá-lo. Estava embriagado de ilusão.

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